REFLEXÃO DE UM ABIÃ - REI POSTO - REI MORTO

Rei posto, rei morto.

Uma reflexão para que as religiões de matrizes africanas não tornem monarcas alienados à moral do outro.

COMO REIS E RAINHAS, é o titulo de um texto que recebi por e-mail destinado a Pais e Mães de Santo, e achei conveniente para fazer algumas considerações, e abrir um debate sobre a que essas pessoas se Zelam sua vaidade ou forças da natureza. Texto que atribui de forma metafórica a função de um Zelador de Santo uma condição monárquica, ou melhor, faz um paralelo, entre a vida desses pseudo ou potenciais sacerdotes. Faz uso como licença poética, quem preferir considere assim, torna o conceito de terreiro, o que é conhecido como um terreno onde se processa as cerimônias religiosas nos cultos afros brasileiros, tanto de candomblé (Ilê), como de Umbanda (Tenda, Cabana, Centro) a um Reino. Até ai o chão, tem de fato esse reconhecimento no âmbito popular, recebe essa categoria de reinado por ser um espaço para que as entidades “baixem”, ou melhor, um estado governado ou dedicado a uma entidade. No caso pela a qual foi conferido o terreiro, um patrono, a entidade protetora, seja um Caboclo, preto velho ou um mestre espiritual, ou um Orixá. Mas até nossos caboclos, pretos velhos, enfim as entidades cultuadas, na Umbanda, Catimbó e afins, tem ainda essas missões por estarem em processo de desenvolvimento, por conta disso, prestam esse serviço espiritual, o que é fácil concluir, que jamais se portariam como reis, seria um contra censo evolutivo.

Quando a palavra REINO permanece no vago plano da semiótica, é compreensível. O que me chama atenção é o egocentrismo se nomeando REI e passar um e-mail diplomático aos demais “NOBRES”, talvez uma forma de disseminar essa nova maneira de zelar a espiritualidade através da exaltação do EU. Como uma necessidade de afirmação no plano do “nobre” e a condição heróica e romântica, que coloca o Pai de Santo, (Rei) se privam de questões pessoais pelo bem da nação. Como uma fabula de contos de fadas (européia é claro) onde há o rei e seus súditos, este inserido ai as obrigações hierárquicas conferidas à corte. Há embutida nessa expressão essa nova figura repugnante de vaidosos, absortos, gestores, embusteiros, que buscam da imagem nobre e se propagam na condição representantes do papel de “almas belas” e assim se lançam no mercado mágico com certo adorno de “pureza de coração”. É uma espécie de onanistas morais, que se satisfaz a si mesmos.

Segundo Nietzsche: “é sabida três palavras mágicas do ideal ascético: pobreza, humildade, castidade” Pois bem busquemos na história os grandes homens e Mulheres, lideres espirituais, fecundos e criadores, e encontrarão neles esses três conceitos. Não como virtude, ou beneficio para um marketing pessoal, essas pessoas pouco importam a virtude, mas como condições próprias e naturais para o desenvolvimento da sua existência e sua maior fecundidade.

Aqui no Brasil, seria difícil imaginar Chico Xavier, o representante máximo dos Kardecistas se auto coroando, ou Madre Tereza, Padre Cícero, Mãe Menininha ou todas essas Yalarolixas, anciãs detentoras do Asé dos terreiros de candomblés dizendo: - eu sou a Rainha. Pelo contrario nos ensina que o voto de humildade como forma de nos integrarmos ao olorum, quando levamos nossa cabeça ao chão louvando o Orixá miticamente estamos nos voltando a Mãe terra, a qual temos que nos desprender de nossas vaidades mundanas (por isso os Banhos de limpeza) para nos integrarmos ao cosmo.

Colocar esse texto no patamar das discussões sobre religiões de matrizes Africanas me parece necessárias algumas considerações. Porque para determinados cultos a herança mítica africana é de fato o bolo, mas em outras não passa da cereja. Entramos agora no universo sincrético da questão. Quando lemos sobre o sincretismo, nos contentamos que nossas religiões afro-descendentes são formadas, da mistura dos cultos, africanos, ameríndios, Kardecistas e por fim católico.

Esse sincretismo religioso deixou essa mistura cultural a gosto do freguês, de acordo com sua geografia, etnia e costumes. Mesmo um grupo da mesma linhagem não consegue fazer com que sua família espiritual siga a mesma cartilha. A Umbanda, por exemplo, reconhecida como autentica religião brasileira, há diferenças marcantes entre uma casa e outra. O mesmo ocorre no Candomblé, sem entrar nas zonas migratórias, peguemos uma única Nação, Keto, por exemplo, ocorre essa diversificação de culto, onde é comum ouvir a expressão “não sei como é na casa do outro, só sei que aqui é assim” o que se configura uma religião de família.

O fato que vivemos num terreno muito frágil, o que pode se imaginar que esse movimento esta em transformação. Reginaldo Prandi tem estudos interessantes nesse sentido, estatísticas que indica de que forma ocorre essa mudança. Há de se considerar, oficialmente existe de dois a três séculos, o que não se converte em templos que somam essa idade, são poucos seculares, e que estejam mais próximo das origens de seus cultos, na maioria são templos novos, que se multiplica por esse país.

Essa transformação é de certa forma inevitável nos dias de hoje, o mundo muda numa velocidade frenética. Joseph Campbell considerado o maior estudioso sobre a mitologia Universal diz: “pedra que rola não cria limo. E o mito é o limo”. Entramos numa queda livre para as mudanças, sem orientação. O que mais necessitamos é aprender a cair. Essa mistura moral antagônica nos deixou sem orientação confiável. De um lado uma oralidade ancestral com base nos elementares da natureza, onde através de seus arquétipos cultua uma consciência cósmica. Do outro uma religião que prega o homem dominando a natureza, usando a terra e seus recursos com total desconsideração. “E disse Deus: ‘Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine-o sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra’.” Gênesis, 1:26. E nossos terreiros entram no movimento e contradição dessa mudança.

Mas como a filosofia cresceu com o ideal ascético, esta na hora de buscarmos e definirmos princípios filosóficos para não perdermos nossas raízes. È necessário ser cônscios, de nossas heranças, o problema esta ai, como teremos noção do que somos, e seremos se ao menos parecem saber de onde viemos, em quais bases, sociológica, antropológica, mítica, histórica, ancestral originamos. «Há a moral dos senhores e a moral dos escravos».Frederico Nietzsche, revela-se ai um bom começo para revermos esses valores morais, quando falamos de uma cultura com base nas matrizes africanas, existe uma moral específica uma cosmologia própria. Nossa sociologia tem como base a escravidão e todas suas mazelas, e nossa mitologia vem anterior a colonização, porque o povo de Angola já veio nos navios negreiros sincretizados, pela colonização portuguesa naquele país. Já esta na hora de deixarmos de empurrar essa realidade para debaixo do tapete, nossas heranças mais rica vieram nos porões dos navios, e com esses negros vieram, toda uma mitologia que de fato é contrária a moral nobre questionada nesse artigo. Nós descobriremos de fato quem somos se não nos envergonharmos de onde viemos, e da moral inserida nesse processo.

Já se faz necessário encontrarmos um veio filosófico que melhor traduz nossa visão cosmológica. O cristianismo fez isso quando se apegou a filosofia aristotélica para encaminhar sua crença e notório no formato da missa fundamentada em Aristóteles. Quanto às religiões de matrizes Africanas nasceram como antítese da moral ascética, do colonizador, e há pessoas que fazem uso dos conceitos morais, do opositor, como no caso os tais “Reis e Rainhas”.

Quando leio um e-mail dessa natureza que se espalha pela rede de computadores, me assusta o grau de pasteurização ética que entramos e a total falta de alicerces, que tenta se formar com a mistura dos opostos, um amálgama do Dominante com o Dominado. Vemos como se propagou o sincretismo moral, como se tivesse a necessidade doentia de aceitação social. Porque quando se cultua elementares da natureza, passa a se ter uma consciência cósmica, o que leva o sacerdote a servir, não reinar os elementares. Esse grau de absurdo não é de domínio, somente desse senhor, já ouvi perolas, que nos mostra que o sincretismo esta longe de ser uma associação arquétipo de santos. Testemunhei de um pai de santo, de Umbanda onde sua casa tem uns 40 anos de existência, esse senhor mesmo sendo de Umbanda tem seus assentamentos feitos no Candomblé, consegue soltar perolas do tipo NÓS SOMOS SOLDADOS DE CRISTO. Ao que constam os soldados de cristo, foram os mesmos que vieram ao Brasil, reprimir os cultos, que deram origem a nossa Umbanda, chamada de Santidade, que eram feitos por índios na sua maioria Tupinambás, alguns escravos fugitivos, onde louvavam seus espíritos, e entravam em transe, e na Europa caçaram milhares de mulheresjogadas a fogueira por cultuarem esses mesmos elementares. Como um babalorixa de São Paulo que investe pesado em marketing pessoal, me relatou que seu desejo é “ser um EDIR MACEDO do candomblé”. Percebe-se a total falta de identidade.

O que contradiz aos aristocratas da fé, é que cada ser humano é um fenômeno em si. A mitologia africana enfatiza a experiência interior da identificação com o divino. A cultura judaico-cristã enfatiza os meios para atingir um relacionamento com o Divino. Relação e identificação são dois preceitos diferentes. Segundo Paulo Freire “A leitura precede a palavra”, assim sendo o papel do Zelador de Santo tem responsabilidades que vão além do próprio ego, num universo com tantas contradições e concepções vindas de fora para dentro, uma foice mutiladora, de um universo mitológico, agindo como uma espécie conversor de crenças. Imposição que caminha pela história e uma sociologia marcada pela intolerância desvalorizada por uma cultura colonizadora européia. São fatores relevantes que demonstra que um Zelador tem mais a se comprometer do que enaltecer a si próprio, e sim integrar-se com toda a cosmologia a qual se propõe a participar. Ou melhor, ter uma leitura esclarecida dessa cosmologia, onde envolve aspectos históricos, éticos, oralidade ancestral, e, sobretudo filosófica que abrange o povo de santo.

No nobre e-mail ainda diz que as pessoas procuram o terreiro em busca de milagre “a operação de um “milagre”, que nem eles conseguem entender”. As maiorias das pessoas buscam sim um tipo de milagre, e isso não é um erro, o que chama de “milagre”, com certo desdém da busca alheia. São pessoas buscam uma percepção clara da espiritualidade que os afetará pessoalmente. É a busca da salvação. Ser salvo é o mesmo que despertar em consciência, um salto em percepção que torna a espiritualização real invés de incerto. A busca da luz é a inversão de paradigmas ao invés do antigo dualismo que insiste em manter nossa vida interior e exterior separadas, é restaurar a luz a sua integridade. Nesse modo, uma crença tradicional é invertida. O domínio virtual, ao contrario do céu, nossa origem não nosso destino após a morte. Essa consciência que chamam de milagre.

O e-mail que inspirou esse artigo vem abaixo, postando ele sem o nome do autor, porque o objetivo é discutirmos idéias e não pessoas, além do mais, passou tal mensagem por acreditar que não só ele, mas muitos pais de santo compartilham desses pensamentos, que na realidade são repletos de bons e nobres sentimentos cristãos. O artigo visa questionarmos essa tendência de alienarmos as religiões afro brasileiras, a moral, valores, e até mesmo a instituição do dominador, como justificativa de sermos aceitos, isso a meu ver é ser intolerante consigo mesmo. Temos que reavaliar a forma de sermos sincréticos, espero que sejamos antropofágicos do que subservientes a valores externos. Espero contribuir para que esses reis sejam depostos em prol da morada de nossa inteligência e de nossa noção de ordem do universo.

Sérgio Cumino.

Abaixo o e-mail que percorre a internet:

COMO REIS E RAINHAS

A vida de um Sacerdote, Dirigente, Pai, Mãe ou Zelador tem alguns aspectos interessantes de se observar.Vivemos como Reis e Rainhas. Nosso trabalho é nosso reinado, os Irmãos que dividem esse trabalho representam a visão e a expectativa do povo.

Temos como função planejar, pensar, organizar e administrar o bom funcionamento do reino. Lidamos o tempo todo com o fator humano das relações, onde um simples “boa noite”, ou a falta dele, causa tumulto ou indignação nas partes.

Temos como papel, ordenar as finanças do reino, e olha que não fazemos saques ou pilhamos outras moradas, e isso faz com que cada dia do reino seja vivido com uma rotina diferente, dia por dia, semana por semana, mês por mês. E tem épocas que o balanço judia um pouco...

A nossa porta, tem aqueles que se sentam em cadeiras, esperando a operação de um “milagre”, que nem eles conseguem entender. Afinal o milagre da vida já lhes foi concedido: nasceram, cresceram e estão vivendo. Só que a necessidade de respostas imediatas é maior do que o “milagre da vida”.

E além de toda essa bagunça que é um reinado, tem a vida pessoal, que inclui relacionamento e família. Ao nosso lado pode estar a personificação do entendimento, e mesmo assim não seremos compreendidos perante as nossas atribuições.

Quem te ama, vai te machucar de verdade...A Família vai ser um episódio único. Eles podem ter o seu sangue, mas não terão o seu pensamento e isso cria um abismo de possibilidades.

Quem deveria te apoiar de verdade, te condena de verdade ou te cobra de maneira impiedosa...

Parece um conto de fadas, né?!

Só que o trabalho não para, tudo cresce e os cenários mudam. Algumas noites são mais longas pensando na dor e na dificuldade dos outros e acabamos por esquecer as nossas próprias dores. Afinal, quem tem coroa na cabeça também tem lágrimas nos olhos e sentimentos no coração.

Podemos caminhar como Reis e Rainhas, e no fundo no fundo, somos Pais e Mães que adotaram pessoas em nossos campos, em momentos de dificuldades para eles. Só que isso não nos isenta da nossa humanidade. Sofremos, lamentamos, temos acessos de ira e como todo mundo, temos dúvidas...

Em alguns momento, o silêncio e a solidão, serão amigos de ouro. Dedico esse texto a todos os Papais e Mamães Espirituais que fazem da sua vida uma jornada continua para a vida dos outros.

Abraços e muito Axé!

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Comentário de George Hora em 12 abril 2010 às 13:24
O culto de matriz africana sempre sofreu e parece que hoje em dia isso só faz piorar nas mãos de pessoas menores que utilizam da crença de que são os unicos portais de acesso a nossas divindades, criando pequenas ilhas de vaidade onde a fé e o dinheiro de muitos são consumidos em nome do ego de seres humanos mediocres.
Comentário de Jacira Maria em 12 abril 2010 às 11:08
Pois é!!
vejo isso por aqui..
bjs
Comentário de Marcos Penna em 9 abril 2010 às 17:29
Sim irmão é triste pessoas quererem ser mais que os nossos Orixás, Voduns ou Nkisis, a fogueira da vaidade suplanta e supera a tudo e a todos, pobres mortais que imaginam-se detentores da superioridade, pois nada mais são do que seus Orixás permitiram ser, aqui no Rio tem diversos zeladores (sacerdotes) com títulos de nobreza, achando-se assim mais que os outros, é deprimente ver uma coisa destas dentro da nossa Religião que tem base na humildade, também tem os vendilhões do Templo que usam a religiosidade para enriquecer as custas dos incautos.
Comentário de MÁRCIA ROCHA em 8 abril 2010 às 14:52
ACHEI MUITO SÁBIO O TEXTO E A CADA DIA QUE PASSA APRENDEMOS MAIS QUE A HUMILDADE ESTÁ ACIMA DE TUDO ... UM ABRAÇO.
Comentário de taogi em 8 abril 2010 às 10:28
este topico e muito interessante meu irmão

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