Quando eu era adolescente estudei inglês num cursinho e foi um período de grande aprendizado para um jovem que até então mal saia do proletário bairro da Liberdade. Eu era sempre o único aluno negro da turma, exceto numa classe de nível intermediário com uns 12 alunos onde havia uma colega negra e assim representávamos o “extraordinário” percentual de 16% de negros. Pelas conversas, em que vinham à tona informações sobre onde os colegas estudavam, que profissão eles e/ou seus pais tinham, o bairro onde moravam, dava para perceber que eu era também o mais pobre. Não vou dizer que lá eu fui vítima de racismo porque nunca senti, honestamente, alguma ação discriminatória. Pelo contrário, eu gozava da admiração e respeito dos colegas e era referência na sala por uma simples razão: fui o melhor aluno da sala do início ao fim do curso. Eu era um gênio? Não, eu não era nem sou um gênio, havia uma razão para eu ser o melhor aluno: paixão pelo idioma. E essa paixão tinha uma origem na infância. Um dos meus 6 irmãos tinha mania de escrever para as embaixadas, pedindo folhetos e passei a “viajar” por alguns países do mundo por intermédio dos textos e imagens dos materiais que ele recebia. Foi assim que tive os primeiros contatos com a língua inglesa, em livretos tipo “Aprenda Inglês Sozinho” que o consulado americano havia mandado. Os livretos eram bem poucos e eram “saltados”, não formavam a sequência, parecia que eram uma “ponta de estoque”. Mas eram o que eu tinha à mão e passei a estudar com eles, sozinho, esperando que um dia na escola de ensino fundamental eu fosse ter aulas de inglês como meus irmãos tiveram, mesmo na escola pública. O ensino público já estava descendo ladeira abaixo, indo de mal a pior e, nas escolas por onde passei, nada de aula de língua estrangeira. Por sorte, sou o mais novo da família de 7 filhos, e minha irmã, que é a primogênita, já trabalhava, assim como os outros irmãos, o que fazia com que a renda familiar fosse melhor nesse tempo, pois já não era formada somente pelo parcos rendimentos do meu pai. Percebendo que meu interesse pelo idioma era quase uma fixação, minha irmã ofereceu-se para pagar um curso de inglês para mim. Escolhi o que parecia melhor, que também era o mais caro, mas minha irmã teve duas compensações: uma que meus estudos de autodidata me permitiram fazer um teste de nivelamento e já entrar no 5º módulo do curso que tinha 10 módulos; e outra que, como sempre tive excelente aproveitamento, nunca precisei repetir módulo algum. Aprender uma nova língua, principalmente um idioma de trânsito universal como inglês, abre diversas janelas para o mundo do conhecimento e não só amplia a quantidade como também a qualidade das suas percepções. Para entender melhor o que quero dizer com isso, recomendo a leitura do texto "Enio e as três almas".

Nesta época de interessantes descobertas eu vim a conhecer, na biblioteca do curso, uma revista americana chamada Ebony e me chamava atenção o fato de ser uma revista somente com negros, enquanto que nas revistas do Brasil tanto os modelos dos anúncios quanto os entrevistados, colunistas e pessoas mostradas nas matérias eram sempre brancos, salvo raras exceções, como Pelé que já era uma personalidade internacional. Eu nunca achei que a revista Ebony fosse racista como alguns poderiam pensar, a minha percepção é de que ela era um espaço que dava visibilidade a pessoas negras que mereciam destaque, como vi por exemplo, uma reportagem sobre o primeiro negro americano piloto de jato civil que trabalhava na Eastern Airlines. As outras revistas e jornais não se preocupavam em mostrar este negro bem sucedido, mas mostravam o marginal negro que fora condenado à morte na cadeira elétrica em algum estado americano. Além disso, a Ebony demonstrava que a desculpa de que não havia negros nos comerciais da demais revistas porque não havia modelos negros caía por terra porque todas as propagandas da Ebony tinham modelos negros(as).

Muito tempo depois viemos a ter no Brasil a revista Raça Brasil que cumpre esse papel de ser uma revista temática que se ocupa de questões voltadas à raça negra. E logo surgem indagações e questionamentos. Para quê uma revista que trata somente de negros? Para fomentar a segregação e instituir o racismo, acirrando os ânimos num pais o onde a questão está bem resolvida e se vive uma democracia racial? Bem, primeiro, não vivemos numa democracia racial, o fato de negros e brancos poderem usar a mesma calçada, o mesmo transporte publico, diferente do que era na África durante o apartheid, não quer dizer que há igualdade. Se esse fosse um parâmetro válido teríamos que admitir que vivemos com equidade de gênero pois, em tese as mulheres tem liberdade para ocupar os mesmos espaços que o homem. O problema é que é tudo só em tese, na prática o buraco é mais embaixo. Além de a democracia racial ser conversa pra boi dormir temos vários motivos para que se publique uma "revista negra": elevar a auto-estima, que foi deliberadamente acachapada durante os 300 anos de escravidão, debater abertamente a discriminação nas suas variadas formas, difundir técnicas sobre como cuidar da pele negra e dos cabelos crespos, estimular a investigação das causas que fazem com que a anemia falciforme tenha maior incidência em negros. Assim como a Revista Nova trata de questões femininas em geral, assim como há revistas dirigidas a grupos distintos como adolescentes, gays, dos aficionados por automóveis, etc. sem serem taxadas de segregacionistas e sim chamadas de segmentadas, por que não uma revista sobre negros? A revista se faz viável porque, na prática, há negros com histórias curiosas e de superação a serem retratadas como exemplo, para não ficarmos apenas mostrando os escravos nas novelas, os negros mendigos dos telejornais e os negros criminosos dos programas policiais. Para estimularmos nossos pares a superar as adversidades e sequelas sociais da escravidão precisamos ter referenciais positivos. As “revistas negras" dão espaço ainda para a propaganda de produtos específicos tais como cosméticos para a pele negra e abre espaço para o emprego de modelos negros que ilustram tais propagandas. Enfim, aprender inglês para mim não se resumiu a dominar outro idioma, significou um olhar mais amplo para fora e ao mesmo tempo um olhar mais profundo para dentro, ampliou a minha visão de mundo, comecei a ver além do bairro onde morava, a enxergar todo o planeta e a me situar nele. Antes de tudo me enxergo como ser humano e partícula integrante do Universo, sem deixar de me ver como homem, negro, cidadão do mundo, brasileiro, baiano, soteropolitano, canceriano, filho, pai, estudante, professor, aluno, enfim, todos os eus que há em mim e que são vistos de um modo ou de outro a depender de onde estou e do olhar de quem me olha. Ter esta amplitude e esta consciência nos ajuda a nos posicionar e a transitar com humildade, mas também com mais segurança e assertividade nos diversos espaços sócio-culturais da vida.

A.C. Ferreira

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Comentário de Edson Cadette em 17 outubro 2010 às 23:32
Parabens pelo otimo texto. Assim como vc eu tambem aprendi ingles atraves de cursos numa escola de ingles em Sao Paulo, e tambem atraves de fasciculos de revistas do tipo "Speak Up". Muitas portas me foram abertas por saber mais uma lingua alem do portugues. Concordo com voce em relacao a nossa imagem midiatica. Revista como a Raca Brasil mostra ao pais que somos mais do que uma imagem nas paginas de crimes dos periodicos nacionais. Como dizem aqui nos EUA, "keep up with the good work".
Comentário de Marcia Macedo em 16 outubro 2010 às 20:51
Texto genial, consegue ser autobiográfico e profundamente político, mostrando as conexões entre os processos de formação de (des)construção dos referenciais do sujeito. Vou mandar o link para meus/minhas alunos/as do curso de Gênero e diversidade (UFBA), pois ilustra bem reflexões que temos em nossas aulas, sobre a necesssidade de uma leitura politizada do nosso ser e estar no mundo, integrando dimensões como gênero, raça/etnia, classe social, idade geração, orientação sexual, entre outros pertencimentos. Parabéns ao autor e um abraço.

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