Reflexões sobre a incidência política da juventude na comunicação, por Nilton Lopes

Conselho de juventude deve atuar pelo direito humano à comunicação para os jovens

 

É sabido que “a comunicação e a informação interferem nas relações sociais e na organização do tempo e espaço” (HENRIQUES, 2009). Partindo desse princípio, podemos entender que todo o processo de comunicação é indissociável da relação simbólica em sociedade. Ora, assim sendo, podemos concluir que todo processo comunicativo é necessariamente um processo político de disputa e/ou colaboração de sentidos.

 

Como conquista da humanidade, o desenvolvimento de técnicas que auxiliem a evolução corroboram com essa afirmação, visto que são as técnicas comunicacionais que estão em evidência na evolução do mundo contemporâneo. Considerados “heróis de nosso tempo”, os desenvolvedores de apuradas ferramentas de comunicação são valorizados tais quais outros tantos ícones da história.

 

Participar é sinônimo de atuar sob égides comunicativas, onde quem tem mais acúmulo de informações e quem mais consegue lidar com os aparatos comunicativos, tem cada vez mais poder. Em todos os tempos na história, a comunicação seja em pinturas rupestres, seja verbalizada ou agora com acesso à novas tecnologias tem maior capacidade de tornar oficial uma determinada versão dos fatos simbólicos e disputa de sentidos e visões de mundo. Tanto os antigos quanto os atuais códigos comunicacionais são orientados por diversos fatores políticos que tanto um determinado grupo (o ganhador do debate), quanto os demais (aqueles “derrotados”) submetem como possível padrão. O acesso aos códigos e também às ferramentas vai indicar quem está e quem não está participando das decisões políticas. Isso vale também para a legitimação ou não das diversas bandeiras que se podem levantar no que tange a mobilização social.

 

Ora, se é assim, quanto mais concentrada a informação mais poder se tem. E ao contrário disso, quanto mais difusa a informação mais poder é dissolvido entre pares. O que o teórico Jesús Martín-Barbero (2003) salienta é que em um processo de mundialização, ocorre um perigo de homogeneizar os sentidos (leia-se neles também as ferramentas para difusão), como defendem os “nacionalistas étnicos”. Martín-Barbero acredita que a heterogeneidade pode ser uma mola propulsora para a construção de um novo tecido social, mas invoca que não é de qualquer forma que isso deve acontecer. Ele se ampara no pensamento de N. Lechner que afirma: “A heterogeneidade soproduzirá dinâmica social ligada a alguma noção de comunidade”. Aqui é importante localizar o conceito de comunidade sendo tal “lugar de pertencimento, o lugar da segurança e do aconchego, onde as pessoas podem estar próximas de semelhantes com os quais possuam um laço de identidade (Bauman, 2003 Apud Henriques, 2009)”.

 

Identificado o lugar da comunicação como ferramenta de poder político e passível de ser dotado de uma pluralidade e de ser difusor da construção de visões de mundo para a dinamização social e o fortalecimento da identidade social e comunitária, basta agora entender o que está no cerne da política para que ela seja alvo de ação política por instituições da democracia participativa.

 

Um conselho de direitos, do tipo geracional e consultivo, como o Conselho de Juventude no Brasil, se orienta por intercalar a construção de espaços de ausculta da população jovem por meio de espaços institucionalizados e das organizações sociais que as representam, avaliar as políticas públicas direcionadas a esse público e recomendar a política e as prioridades delas para o poder público. Apesar de aqui sintetizadas, essas funções prescritas de um Conselho de juventude revelam os limites e as possibilidades de atuação dessa instituição.

 

Observando essas possíveis ações em conjunto com a recente mobilização pelo direito à comunicação no Brasil, não seria de se espantar que a comunicação fosse tema vulnerável em relação à outras prioridades, mesmo que se entenda a necessidade ferramental dessa e mesmo que o público demande (in)diretamente de forma expressiva políticas nessa área.

 

Porém, associar a demanda do Conselho a atuação pela política de comunicação pode ser importante por diversos aspectos, entre eles:

a) Fortalecimento da identidade – Só com ações diretas de políticas de comunicação pode-se construir uma base edificante que ative nas pessoas e nos grupos a noção de construção de sua própria narrativa. Isso contribui para além de reconhecimento de uma auto-imagem projetada possibilitar que os próprios indivíduos e os grupos elaborem um conceito próprio que compita com outras construções conceituais de suas identidades. Além de que essa possibilidade de gerar disponibilização de ferramentas como política para construção de narrativas pessoais/coletivas fomenta a democratização da construção da história que deve seguir como referência para novas formas de atuação sócio-cultural e política;

 

b) Potencialização da mobilização comunitária – fomentar a constituição de ações fundantes na área de comunicação, socializadas, contribui para demandar um sistema público de comunicação. Esse sistema público pode servir para que as comunidades de atuação juvenil, sejam elas territorializadas ou agrupadas por um sentido único, se organizem com um fluxo de trocas de informações horizontalizadas e, mais do que isso, convoque outros que possam se solidarizar com a causa ou com o território e amplie sua relevância social e política;

 

c) Coletivização da agenda social – gerar sentido amplo a sua bandeira de luta é uma necessidade dos movimentos e organizações sociais dos jovens. Para isso, agendar a sociedade da sua causa é extremamente importante no sentido de revelar a existência do problema sugerido por estes grupos e convocar reflexões e adeptos à causa. Por isso, faz-se necessário um processo difuso de comunicação que amplie a voz desses coletivos e orientem debates e construção de pontos de vista sobre estes.

 

d) Pluralidade de vozes – para que pontos de vistas com diferenciais e eixos argumentativos sejam disputados e/ou colaborados entre si é extremamente relevante um processo de comunicação que garantam uma diversidade contundente de vozes, principalmente no caso da juventude que se caracteriza por ser tão múltipla em identidade. Para isso, políticas que garantam a expressão com liberdade e amplo poder de escuta podem facilitar a participação ativa de jovens e grupos em processos políticos;

 

e) Ampliação da participação política – espaços de decisão coletivizados com informações amplamente difundidas fortalecem a cidadania na democracia participativa direta. Nesse sentido, políticas de comunicação são fundantes para que esses espaços pré-estabelecidos se amplie e sejam passíveis de corresponder novas dinâmicas de acessibilidade e atuação política de jovens e suas organizações, além dos movimentos sociais que participam.

 

Emergência de atuação - A comunicação ainda pode ser encarada como prática pedagógica como avaliam diversos teóricos e demonstram as práticas de muitas organizações sociais. Mas, somente pela demanda de uma mobilização social pautada em valores simbólicos e identitários plurais e progressista, a comunicação poderá ser encarada como prioridade na incidência política de espaços institucionalizados de participação democrática como os Conselhos.

 

Não só uma emergência de determinado grupo geracional como no caso dos jovens (foco central desse texto), políticas de comunicação surgem como garantia de um direito promulgado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e podem fortalecer em especial a mobilização social e cultural de movimentos que tendem a se popularizar pela solidariedade individual e pela emergente intenção de ação política dos cidadãos.

 

Como e quais elementos da política devem ser priorizados e qual a intensidade da incidência política é necessária e pode provocar mudanças significativas no percurso da ação nesse tema, ainda são pontos obscuros e ao mesmo tempo nevrálgicos a serem discutidas amplamente e de forma essencial pelos Conselhos de Direitos e pela sociedade em geral.

 

Referências Bibliográficas

 

Nota

HENRIQUES, Márcio S. Comunicação, comunidades e os desafios da mobilização social. In: SCHERER-WARREN, Ilse et al. Sociedade Civil e Participação. Módulo 4 do Programa de Formação de Conselheiros Nacionais. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

MARTÍN-BARBERO, Jesus. Globalização Comunicacional e transformação cultural. In: MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.

 

 

*Nilton Lopes é jornalista, atua na CIPÓ – Comunicação Interativa. Faz especialização em Democracia Participativa, República e Movimentos sociais na Universidade Federal de Minas Gerais.

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