Religião tipo exportação: seita brasileira passa a ser consumida em larga escala na África do Sul



Além de camisa da seleção brasileira e da caipirinha, outro produto brasileiro começa a ser consumido em larga escala aqui na África do Sul. Trata-se da Universal Church of the Kingdom of God, em outras palavras, a famosa Igreja Universal do Reino de Deus, criada em uma antiga agência funerária pelo então anônimo e hoje multimilionário Edir Macedo.  A seita neopentencostal chegou à terra de Mandela há 17 anos e vem crescendo a cada dia.  


Estrategicamente localizada no centro de Joanesburgo – local de imigrantes africanos e sul africanos  negros -  o templo é destaque na região. O prédio é moderno, possui dois elevadores, brinquedoteca e ar-condicionado central. Não se compara à famosa Catedral da Fé localizada na região nobre de Salvador, a chamada Roma Negra brasileira, mas não faz vergonha a nenhum prédio público da área onde está localizada no centro financeiro da África. Na porta da igreja três homens fortes garantem a segurança local e fazem a dissuasão de qualquer presença indesejada. Os obreiros são jovens, nenhum aparenta ter mais que trinta anos. Ao fundo um pastor branco, de aparência paulista, dá instruções e garante o sucesso da franquia santa, que aqui promete benção aos pobres, desde que haja uma contrapartida em rands, a moeda local. 


Chego já no meio da sessão das 15h, sob o olhar suspeito dos obreiros, que percebem que estou visivelmente deslocado e atrasado.  Sento no meio das aproximadamente quatrocentas pessoas que deixaram seus afazeres domésticos, ou profissionais, para receber as bençãos vindas do Brasil. Como dizem, o criador deve ser mesmo brasileiro, mas aqui na África do Sul também fala zulu, xhosa e mais nove das onze línguas oficiais do país. 


A música é alta, os gritos são constantes.  Assim como na matriz brasileira, todos os pastores e obreiros usam camisa branca, gravata e calças com muitos centímetros acima do umbigo.  O ritmo é hipnótico e as palavras são entidades facilmente conhecidas pelos nativos. Wyalchalwa noma cha wyalchalwa noma cha. Curioso, pergunto a um jovem sentado a minha frente em que língua estão cantando e o que significa a expressão.  Ele me diz que o idioma é zulu e a tradução seria algo como “ou você acredita ou não...”. Mais óbvio, impossível. Peço a ele, então, que anote para mim a expressão em um pedaço de papel, mas não insisto nas perguntas, pois o jovem parece concentrado. Digo a ele que sou brasileiro e recebo de volta um sorriso, como quem me agradecesse por trazer uma religião tão boa para seu país cheio de problemas, como a xenofobia e corrupção. 


O continente africano é hoje um mercado prioritário para a Igreja Universal, afinal são 900 milhões de pessoas ávidas por melhores dias em meio a dificuldades causadas pelo Ocidente durante séculos, como relata o escritor Walter Rodney no livro How Europe underdeveloped Africa (“Como a Europa subdesenvolveu a África”, inédito no Brasil).  Em Angola, por exemplo, Edir Macedo tem status de astro pop e é frequentemente convidado para jantares na casa do presidente.  Já em Moçambique, a Igreja compra páginas de jornais e assina como se fossem matérias jornalísticas, sem o famoso “anúncio publicitário”, como manda a ética da profissão.  


Na última passagem do presidente Lula pelo continente, em Maputo, o bispo e senador Marcelo Crivella era uma das personalidades mais citadas, junto a outros nomes do empresariado, como o de Roger Agnelli, presidente da mineradora Vale ( antes, quando era ainda estatal, chamada de Vale do Rio Doce).  


Apesar do cristianismo ter originalmente um berço afro-asiático, e a Etiópia ser um dos países cristãos mais antigos do mundo - com sua Igreja Copta - as religiões neopentecostais se distanciaram a muito tempo de sua matriz negra, e hoje alimentam o discurso da teologia da prosperidade. Se de fato Cristo foi negro, aqui na África ironicamente ele foi totalmente embranquecido.


Assim como no Brasil, a principal inimiga da Igreja é a religião tradicional, que tem cada vez menos expressão na África. Na Nigéria, por exemplo, as telenovelas associam tudo que é mal com as crenças politeístas, que eles chamam ironicamente de “magia negra”. Em Gana, o país pára aos domingos para ir à Igreja e os religiosos tradicionais, quando acusados de feitiçaria, são enviados para uma espécie de campo de concentração, onde ficam reclusos, fato já denunciado ao Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas. 


“Quando o colonizador chegou na África, tínhamos o ouro e eles a Bíblia, quando eles deixaram o continente,  ficamos com a Bíblia e eles com ouro”. Enquanto fico pensando nessa frase de Jomo Kenyatta, primeiro presidente do Quênia, percebo que a música muda para um ritmo muito legal, tipicamente sulafricano, e  as pessoas começam a dançar igualmente ao modo que vimos no estádio de futebol Soccer City no jogo entre os dois principais times de Soweto, Orlando Pirates e Kaizer Chiefs. É uma dança que lembra até o pagode baiano, em especial o “tchuco”, sucesso do carnaval passado, só que menos sensual e mais inocente, quase infantil. Os punhos são fechados, o movimento é sincronizado, para frente e para trás. 


Olho para minha esquerda e avisto uma senhora alegre, de aproximadamente sessenta anos, com vestido azul celeste, óculos amarelo e com os lábios na diagonal como se estivesse “nem aí” para os problemas. Ela dança graciosamente. Seu peso era proporcional à alegria, e a cada três minutos grita trincando a língua, como se fosse alguma manifestação de felicidade. Olho para ela e dou um sorriso, gentilmente ela me retribui com mais dança, virando para os lados e olhando disfarçadamente para conferir se ainda estou prestando atenção na sua performance. 


Como em qualquer franquia, uma das características da Igreja Universal é a adaptação à cultura local. Na Subway brasileira, por exemplo, o pickles é muito menos condimentado que a versão londrina e sulafricana, que tem como base a apimentada cozinha indiana e seu famoso curry.  Na África do Sul, invariavelmente, sempre dois pastores revezam-se na tradução Inglês-Zulu, ou Inglês-Xhosa (a língua de Mandela), afinal, no contexto da nova África do Sul, o inglês precisa ter o mesmo status que as línguas africanas. 


“Ou você muda minha vida, ou você pode tirar minha vida, Baba”, grita o jovem pastor, com uma retórica e autoridade digna dos melhores quadros políticos do Congresso Nacional Africano (CNA), partido político criado para advogar o fim doapartheid e, assim como o Partido dos Trabalhadores no Brasil, ganha sucessivamente as eleições locais desde a  vitória do seu primeiro presidente, Nelson Mandela.  A palavra “Baba” para muitas línguas africanas significa “pai” e é usada várias vezes no culto, sempre em um tom desafiador para com o supremo interlocutor espiritual. 

Um senhor com aproximadamente cinquenta anos e uma barriguinha de chop se emociona com a oração e repete o mantra do pastor, Yes, baba, if you don´t change my life, then take my life, desafia.  Um  jovem com uma jaqueta nas cores do panafricanismo (vermelho, verde, preto e amarelo) pula de emoção. Lembro então que a África é um continente de jovens, com metade da população nessa faixa etária, e que os desafios são enormes para resolver problemas crônicos como corrupção, falta de infraestrutura, migração e fome.  Lembro também que, por contradição, esse é o continente mais rico do mundo, seja em recursos minerais (petróleo, urânio, diamantes etc.) ou por suas terras aptas para o cultivo de muitos alimentos. Um empresário gaúcho que vive em Gana disse que esse país era o Brasil da década de sessenta, tamanha a possibilidade de investimentos. Ele, de olho nesse nicho, vendeu suas propriedades no Brasil e hoje  cultiva arroz em solo africano.  


Olho para o relógio e lembro que tenho um compromisso marcado, tenho de ir para o bairro de imigrantes da Somália, onde está acontecendo uma cerimônia islâmica, semelhante ao natal dos cristãos. A Somália é uma nação sem estado, com uma guerra civil que dura décadas. Lá quase não há embaixadas estrangeiras, ONGs de cooperação são expulsas todos os dias e é um dos países que mais enviam refugiados para a África do Sul - eles querem escapar do caos social instalado em seu país. O mais curioso é que muitos somalis, apesar de pretos retintos, se consideram árabes e não africanos. Penso em como as religiões tradicionais foram extirpadas da África com os séculos de invasões estrangeiras e como a exportação de crenças faz parte da geopolítica da dominação global. Além de açúcar e frango, descobri que a África é também uma grande importadora de fé. 


*Coeditor do Portal Correio Nagô. Reside em Salvador, Bahia. O autor viajou à África para gravar uma série de reportagens para o projeto Panáfricas. E-mail: paulorogerio81@gmail.com 

 

Publicado originalmente no site Balaio de Notícias

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Comentário de Ailton dos Santos Ferreira em 22 dezembro 2010 às 19:20

Caros irmãos e caras irmãs,

Vejo isto e mais aquilo.  Vejo a perda progressiva de referências éticas, vejo a deterioração de valores ancestrais importantes, vejo a banalização da violência, do desvalor da vida, da naturalização da corrupção, a naturalidade do assassinato de jovens negros e de mulheres indefesas. Vejo alianças nunca antes na história serem admitidas sequer, vejo crianças abandonadas em córregos fétidos, vejo tatuagens em jovens incertos do caminho a seguir. Vejo tráfico em alta nas altas cortes e assimilados em alta nas periferias apodrecidas e sem valor. Vejo santuários sobre seres humanos em forma de construções suntuosas. Vejo um pavio aceso que ilumina como clarão de curto-circuito. Parece que vamos explodir a qualquer momento. Antes de mais templos e estruturas burocratizadas celestiais, parece que a solução é benção, ou bença. Mais colo, mais peito, mais pai e mãe, carinho, olhares, respeito, referência.

Que tal uma bolsa-família de pacto ético. Então a partir de agora vamos amar, assumir e adotar filhos do mundo, conversar com eles e elas, tratar melhor a natureza amando-a de verdade, não roubar, não mentir e cuidar do mundo com atitudes simples e sempre.

As mortes de jovens na periferia negra acontecem sempre onde tem igreja por perto. Paredes de concreto apenas não é a solução.

Ailton Ferreira, SEMUR, Salvador

Comentário de Patrícia Bernardes em 22 dezembro 2010 às 14:25

"Assim caminha a humanidade..." como diria Lulu Santos

Na ânsia de pertencer a núcleos e/ou conquistar o seu lugar no espaço , a população mundial consome " a seco" tudo que lhe é dado em nome de uma VERDADE cinematográfica postada em sites, blogs e jornais como sendo para "alcançar a glória eterna".

Quando ouço falar de Edir Macedo lembro-me da hermenêutica perfeita de Adolf Hitler.

"Na guerra eterna a humanidade se torna grande - na paz eterna, a humanidade se arruinaria", escrito Adolf Hitler.

 

Como diz meu colega Paulo Rogério:

" O que se pensar sobre isso?"

Axé de Paz,Força e Luz a Todos!!!

Até 2011!!!

 

Patrícia Bernardes

 

 

 

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