Salvador e a suposta democracia racialFoto: Karol Azevedo / Bahia 247

MÚSICO DIZ QUE SOFREU ATO DE INJÚRIA RACIAL DENTRO DE SHOPPING DE SALVADOR; ELE NÃO TEVE ACESSO AO BOLETIM DE OCORRÊNCIA E NÃO SABE SE FOI AUTUADO COMO VÍTIMA OU ACUSADO

30 do 01 de 2012 às 19:22

Por Rebeca Bastos_Bahia247

Quando o músico e estudante de audiovisual Fábio Roberto Lira aguardava para comprar um lanche na Perini do Iguatemi, na última quarta-feira (25), não imaginava que seria mais uma vítima do crime de injúria racial. "Eu estava na fila quando um cidadão tomou a minha frente. Quando fui dizer que ele estava invadindo o meu lugar ele me agrediu verbalmente e disse que eu era um preto do cabelo rasta podre e f*****".

Logo depois das injúrias raciais o músico, que é vocalista da banda de pop reggae Soul Negro, disse que procurou a segurança do shopping para formalizar uma denúncia contra o agressor, que responde pelo prenome de Michel e supostamente trabalha na Agência do banco Itaú do mesmo shopping. Ao ganhar uma negativa dos seguranças, que disseram que 'o problema era da polícia', Fábio foi atrás do agressor que tentou se esconder em uma loja de informática. Ao falar com o Michel, uma nova cena de intolerância se deu: "ele empurrou o meu rosto e me agrediu verbalmente de novo, daí os seguranças do shopping resolveram chamar a polícia", contou.

'Polícia comprou versão'

No entanto, a chegada da polícia não se traduziu na resolução do caso para Fábio, pois de acordo com ele, os seguranças do local compraram a versão de Michel, o acusado de cometer racismo, e disseram aos policiais que Fábio tentou agredir o homem. Aí, começa mais uma cena desfavorável para o músico: "eles não me deram oportunidade de falar nada, nem a meus dois amigos, que testemunharam tudo. Simplesmente nos jogaram na mala do carro, como se fóssemos criminosos, e Michel seguiu para a delegacia na frente, como a vítima da situação", relatou inconformado.

De acordo com o advogado de Fábio, José Raimundo dos Santos Silva, a ação dos policias é questionável, uma vez que eles não deram  o direito de seu cliente se defender. Já na delegacia, mais uma confusão põe em dúvida o destino do processo: "Não tivemos acesso ao boletim de ocorrência, nem ao termo de circunstanciado, que é onde consta quem é o autor, a vítima e o artigo do código penal do processo", informou o advogado. De acordo com Silva, a próxima atitude é abrir um processo no Ministério Público para apurar o que houve de errado na ação policial e no procedimento da delegacia.

O delegado plantonista da 16ª delegacia, no bairro da Pituba, Fábio Melo foi procurado pela reportagem, mas não estava de plantão nesta segunda, seu colega, o delegado Alberto Xirame, disse que só ele poderá esclarecer os motivos de não ter apresentado o  registro da ocorrência. "Este é um procedimento comum, dever ter acontecido alguma queda de sistema ou problema com a impressora", argumentou.

Fábio, que também atua como educador em um projeto para presidiários e é militante da campanha do movimento negro "Reaja ou será morto. Reaja ou será morta", disse que sente o racismo vivo em Salvador todos os dias, mas que nunca tinha sofrido uma ação direta como esta: "é insustentável uma situação destas ainda acontecer. Não posso deixar isso se perder, temos que correr atrás da justiça", assegurou o jovem.

Protesto no Iguatemi

Por conta da postura da segurança do shopping, Fábio decidiu, através do Facebook, convocar os amigos e colegas de militância para chamarem atenção para a situação. O protesto aconteceu na tarde desta segunda-feira (30) e contou com o apoio de aproximadamente 50 pessoas que fizeram uma apitaço e empunharam faixas contra o racismo em frente à loja da Perini.

No entanto, de acordo com a assessoria do Iguatemi, os seguranças do shopping não tomaram partido de nenhum dos clientes, até porque "eles não presenciaram o fato" e não poderiam testemunhar. "Eles apenas esperaram a viatura policial chegar, a partir daí a condução do caso é uma responsabilidade da polícia", justificou a assessoria, informando que  caso o  Iguatemi seja solicitado judicialmente para ceder as imagens das câmaras do circuito interno do shopping, o fará sem problemas.

Fatos recentes

Denúncias de racismo não são novidade em Salvador, que embora seja a cidade mais negra do mundo fora da África, expõe dados de intensa desigualdade racial, de acordo com dados do censo do IBGE 2010.

Recentemente, dois fatos ganharam repercussão na imprensa local e nacional. O primeiro terminou com a prisão da agressora e aplausos das testemunhas. Já o segundo, também envolve uma ação desastrada da força policial e terminou com a vítima no hospital e sem a visão de um olho.

Fonte - www.bahia247.com.br

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Comentário de Jaguaracy Conceição em 6 fevereiro 2012 às 18:19

Basta permanecer um tempo no Iguatemi ou no Salvador para perceber-se como os seguranças agem quando garotos(as) negros(as) desacompanhados tentam adentrar naqueles espaços. São logo convidados para se retirarem. Esse é o Brasil de Dilma, essa é a Bahia de Wagner.

Comentário de Eduardo César QUISSOCA em 5 fevereiro 2012 às 14:32

É preciso o negro acreditar no negro. Quando é político, não acreditamos, preferimos votar no outro, quando é um médico, logo olhamos com certo descrédito, se é um jornalista, a mesma coisa. É preciso que acreditemos em nós, no potencial dos nossos irmãos para mudarmos definitivamente esse estado de coisas. Essas palavras sábias são da autoria do nosso querido pai Abdias de Nascimento

No Brasil se pratica a modalidade de racismo mais perversa, insidiosa e letal, porque trata-se de um racismo camuflado que em circunstância nenhuma se assume. E como uma doença, que se esconde no corpo social e vai produzindo efeitos, a começar pela destruição da auto-estima da criança negra.  Mas O  brasileiro as vezes se orgulha de viver numa sociedade multi-cultural que abraça harmoniosamente todas as pessoas (MENTIRA!), todas as raças (MENTIRA!). Os casamentos interraciais são comuns?  (Sim, mas JAMAIS  entre uma negra pobre e um branco rico: a negra foi sempre o joguete sexual, aquela coisa que destinava-se ao branco para... transar, e jamais para casar). O Brasil é hoje a casa da maior população afrodescendente fora de África. Mas, apesar de já serem maioria também no Brasil, os afrodescendentes (negros e pardos ou mulatos de diferentes tons de pele) ainda estão muito longe da tão propalada igualdade e democracia racial.

O sonho de ver negros em postos de direção no Brasil é um direito. Não é nenhuma coisa exorbitante costumava dizer o nosso Pai Abdias de Nascimento!

É também um direito sagrado dos Negros serem respeitados nos lugares públicos de negócios onde, (infelizmente) eles não têm um grande poder de compra.

Será que o Negro brasileiro tem qualquer sonho?… apesar dos enganos e desenganos da vida que arrasta-o sempre num circulo vicioso de pesadelos sem fim…

O pesadelo continua sempre ao despertar…com olhos abertos.

"O Lord Have Mercy"

Deus nos cobre de Seu Manto.

Comentário de Eu em 2 fevereiro 2012 às 23:02

Comentário de Euagora mesmo           Excluir comentário

Ai! Toda vez que vejo essas situações acontecendo, sinto um frio na espinha, pois sei que  ainda prevalece a máxima da hipócrita  democracia racial. E toda vez que um africano descendente tenta utilizar seus direitos, sejam eles quais forem, a situação se inverte. Boa sorte mesmo.

A legítimidade só virá com luta, eu sei disso, mas sem a consciência social iniciada por bons exemplos dados pelas autoridades governamentais e fundamentados pelas instituições familiares e educacionais, fica difícil estabelecer mudança. E quando vejo instituições governamentais como a instituição polícial, que deve  em primeira instância legítimar, e fazer valer a constituição, falhar na sua função principal, que é de garantir os direitos de todos segundo a constituição. Então sei que o sistema hipócrita continua corrompido e nada mudou. Muito triste.

Comentário de Dilnei Severo em 1 fevereiro 2012 às 9:30

Não conseguem eleger um governador negro usando a maioria....

Não conseguimos fazer por nós mesmos e ficamos na eterna espera de que o homem branco vai resolver....

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