Salve Jorge! O pluriculturalismo religioso no Brasil, e o extremismo ignorante propagando intolerância e racismo.

Esta semana deparei-me com um fato que me fez sentir um regresso de, no mínimo 500 anos, com relação a mentalidade ignorante de alguns seres humanos em relação ao respeito, tolerância, responsabilidade, etc. Trata-se da então polemizada telenovela da Rede Globo de Televisão: "Salve Jorge".

Desde o anúncio da estréia da telenovela pela emissora, vem surgindo uma campanha difamatória contra as religiões afro-brasileiras utilizando-se da expressão "Salve Jorge", associando-a à satanismos, espiritismo, etc, e conclamando que as famílias "Evangélicas" boicotem a exibição da telenovela, alegando que trata-se de uma adoração ao Orixá Ogum, e que colocaria o "mal" dentro dos lares das famílias ditas evangélicas.

O fato chamou atenção até do Jornal "A Folha de São Paulo", que publicou em seu site a seguinte matéria:

"Além dos órfãos de Carminha (Adriana Esteves), “Salve Jorge” estreou nesta semana com outra torcida contra: a dos evangélicos.Desde sexta-feira (19), circulam na internet movimentos de protesto contra a nova novela de Glória Perez, que vai falar sobre são Jorge.Um dos posts do manifesto, que circula no Facebook, diz que a novela vai adorar um “ogum” (identificado como “entidade espírita”), e que os evangélicos, que “creem no Jesus”, não devem dar audiência ao folhetim.A maioria dos protestos vem do site exercitouniversal.com.br, formado por fiéis da Universal. O próprio líder da igreja evangélica, o bispo Edir Macedo, faz campanha em seu blog contra a nova novela da Globo. Um dos textos do blog diz que as pessoas não devem aceitar dentro de suas casas algo que contrarie sua fé. Macedo ainda aproveita para promover a reprise de “Rei Davi”, que volta ao ar nesta semana, na Record, para enfrentar “Salve Jorge”. Fonte ligada à Universal disse à coluna que pastores devem estimular os fiéis em cultos a boicotarem a novela da Globo.

Procurada, a Globo diz que a novela não fala de são Jorge, e sim do mito do guerreiro. E que a única referência ao santo é o fato de ele ser o padroeiro da cavalaria da trama.

(Fonte: http://outrocanal.blogfolha.uol.com.br/2012/10/23/evangelicos-prome...) "

 

Como podemos ver, a própria emissora não confirma que a trama fale sequer do Santo Católico, quanto mais do Orixá Guerreiro Ogum. Confesso que tudo isto me deixa um pouco preocupado, pois diante de tantos avanços que nosso povo negro, afro-descendente, afro-religioso, tem conquistado, com a força de Exu,Ogum, Xangô, etc, onde políticas públicas são discutidas, implantadas, executadas, em favor do nosso povo, tudo no âmbito da democracia, das discussões construtivas, das Leis, mesmo assim, nos deparamos com nossos históricos algozes vez por outra levantando suas empoeiradas espadas, suas enferrujadas lanças, suas mofadas cordas de forca, e suas lenhas escondidas das fogueiras, para nos atacar. Quando pensamos que todos estes arsenais bélico-religiosos-racistas estavam desparecidos, ei-los, surgindo empunhados principalmente por quem detém certo poder de formação de opinião, e prontos para o abate. 

Não é o caso, mas, em um país onde o "Estado é Laico", ao menos na Lei, e produz e exibe telenovelas sobre personagens religiosos cristãos, além de ter emissoras com longos horários comprados por estes segmentos religiosos, bem como emissoras que 24 horas por dia exibem conteúdo direcionado para este segmento, por que preocuparia se um simples tema de UMA novela fosse ligado às divindades ancestrais africanas, que mesmo que queiram negar, mas a história está aí para comprovar e assegurar a grande parte de contribuição que tem na construção deste país-continente chamado Brasil? E se os religiosos afro-brasileiros (que são muitos, e o senso do IBGE não retrata nem a metade) conseguissem nos avanços e retrocessos das Leis e Políticas Públicas como tem acontecido, a instalação de Rádios e TV's ao menos comunitárias, voltadas para este público, o que aconteceria? Será que ocorreria uma versão explícita (porque implícita já se percebe), de uma nova "Inquisição", só que desta vez os algozes e carrascos expandidos para outros segmentos? Onde iremos parar com tanto racismo, com tanta intolerância, mesmo com alguns que já estão inseridos historicamente, se disfarçando de não-racistas para tentar propagar a ideia de que "não existiria racismo" mesmo diante de tantas comprovações como esta?

Mais uma vez evoco a Lei 7.716/89 (Lei Caó) que é bem clara com relação à este tipo de abuso:

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

        Pena: reclusão de um a três anos e multa.

        § 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

        Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

        § 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

        Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

        § 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência: (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)    

        I - o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do material respectivo;

        II - a cessação das respectivas transmissões radiofônicas ou televisivas.

        III - a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede mundial de computadores. (Incluído pela Lei nº 12.288, de 2010)

        § 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da condenação, após o trânsito em julgado da decisão, a destruição do material apreendido. (Parágrafo incluído pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

        Art. 21. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. (Renumerado pela Lei nº 8.081, de 21.9.1990)

        Art. 22. Revogam-se as disposições em contrário. (Renumerado pela Lei nº 8.081, de 21.9.1990)

 

Acredito que muitas entidades, organizações, federações religiosas, representantes de classe etc, espalhados pelo Brasil afora, irão procurar os respectivos Ministérios Públicos, Estaduais e Federais, com esta Lei embaixo do braço, e clamar para que seus direitos sejam garantidos, e seus danos morais reparados, pois só assim conseguiremos ao menos calar este tipo de violência contra costumes, culturas, segmentos e etnias. Infelizmente só assim iremos nos fortalecendo ainda mais contra estes abusos, mas fico com um questionamento: Será que vai chegar ao ponto, de assim como alguns religiosos andam com seus livros sagrados em baixo do braço, seremos obrigados a andar com a Constituição Federal e com a Lei Caó também embaixo do braço para tentarmos nos defender?

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