Entre a servidão e a escravidão existem muitas correntes e cangalhas, mordaças e navalhas; existem incontáveis filhos sem mãe e esposas sem maridos; Existe muito sangue misturado com suor, e muitas lágrimas ao redor do olhar do negro que é encarado como presa, e como um prêmio, que em breve será empalhado ou na Casagrande emparedado.

Na servidão, há sim a forçada construção de uma alheia nação, mas sim, sem a dor que se receia, ou a 

humilhação que aperta o coração, além do archote que queima a veia até do seu pequeno filhote.

O discurso do predador, dizendo que sempre existiu sinhô, fazendo de servidão, sinônimo para Escravidão, é uma ignóbil tentativa de ocultar sua infâmia, que é um crime para cem perdões, a contar do dedo de cada mão de quem não viveu nem uma vida de cão.

Entre o servo e o escravo há muito mais do que um simples escracho, há uma pele negra que, igual à noite escura, amedronta o ariano-albino incauto.  Do servo, a sua força ativa se explora todo dia; do escravo preto, sua noite se torna cem dia, pois ele só trabalha com a dor da sangria de um coração que já conheceu a alegria. A pele do escravo preto é uma bandeira que Afronta, sem levar em conta o golpe que se adianta em cada Estado que a mão levanta para que o capitalismo tome conta da liberdade que se colhe a cada exaustivo trabalho de cultivo da dignidade humana, e não de plantação do café ou da cana.

O tratamento dispensado a cada indivíduo esmagado em seu infame labor, tendo a dor de seu corpo interior e exterior como recompensa de seu sinhô, inaugurou a escravidão selecionada pela cor. Antes disso, a servidão era o mesmo que receber o divino perdão de um Deus invisível e sem coração; o trabalho dobrado era a solução.

Do trabalho escravo surgiu uma nação, hoje chamada Europeia por sua União, mas que veio mesmo do fundo da escuridão da idade das trevas, e sequestrou a razão amaldiçoando a emoção. Desde então, a definição de tudo segue um padrão, e todos os conceitos devem ser os do patrão, para que servidão possa rimar sempre com escravidão sem provocar nenhuma confusão.

Assim, o sangue que lava o chão, escorrendo pra baixo do vermelho tapetão estendido na sala, em frente à TV que exibe o jogo do melhor time, num dia de domingo, sem o jogador neguim precisar enfiar um gol na cara do empresário ariano no campeonato desse ano. Esse neguim é um servo fiel e não um escravo romulano.

Assim, a cada ano a escravidão vai se transformando, ela é transformista a cada entrevista; brinca em frente à TV, dança nos programas de auditórios e se exibe em comerciais e até nos créditos finais; aparecendo nas manchetes e sempre estampada em outdoors e capa de jornais. Por isso, hoje o escravizado se orgulha de sua escravidão, já que não sabe a diferença e nem os conceitos básicos de servidão, e nem sabe que não sabe.

Desse modo, entre sinônimos e antônimos, a memória se perder nos escaninhos dessa história com início, mas sem fim, já que as páginas desse livro são escritas pela mesma mão que ontem segurou o chicote e que hoje faz jorrar sangue da ponta da caneta prendendo qualquer fracote.

Portanto, os sujeitos dessa história estão espremidos entre os tijolos que construíram e que constroem os shoppings e arranha-céus, hospícios e cárceres das cidades que sempre cultivam suas favelas-senzalas, a fim de manter o padrão europeu de escravidão. Entre os tijolos de quaisquer construções e uma simples bandeja que serve a um capelão, não existe mais qualquer sinônimo para descrever escravidão. Desse modo, a profunda dor que rasga o corpo e traz indignidade a alma, também mata todos os dias do ano os nossos filhos e filhas, descendentes de africano, que servem de escravo em seu cotidiano a qualquer um ariano; sem saber ou por engano, ou mesmo por desconhecer determinado sinônimo.

Da escravidão como crime da história, até o racismo como resultado desse crime infame, é notório que sua tipificação deva ser a de Crime Continuado, e ainda, sendo este crime, um crime contra a humanidade, visto tratar-se de um crime praticado contra um determinado povo. Deve-se abolir imediata e definitivamente o famigerado engodo jurídico tipificado como injúria racial, criado exclusivamente para evitar a punição do citado crime que vem sendo o perverso racismo, para cujo dolo, ainda não existe até os dias de hoje, nenhum facínora que tenha sido enquadrado nessa lei para preto ver. Servidão pode até fazer rima com escravidão, mas para o crime e o criminoso só resta mesmo à responsabilização.

Portanto, não falemos mais da pobreza como crime, e nem da cor da pele como definidora de caráter como recomenda as narrativas contidas nos discursos da bula papal, científica e social, que transformou o deserdado num monstro ou anormal; Falemos sim, da vida humana e da dignidade de cada ser, sujeito, gente e protagonista na construção de uma nova realidade humana da idade das luzes. Desse modo, chegaremos ao único regime aceitável: o Regime da Liberdade incondicional.

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