Seu Jorge teria sido vaiado em show ao declamar poema "Negro Drama"


(Foto: Nana Moraes)

Redação Correio Nagô - O relógio marca 1h da madrugada do dia 28 de outubro. O músico, cantor, instrumentista, compositor e ator Seu Jorge entra no palco da Fundição Progresso, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. O show ocorre “sem maiores problemas”. Mas o cenário muda quando o cantor começa a declamar a música “Negro Drama” dos Racionais MC’s.


“Enquanto Seu Jorge declamava com muita paixão os versos de “negro drama”, parte da plateia começou a vaiar, pois é, vaiar! O que leva uma pessoa a pagar R$60,00 no show de um artista, e posteriormente vaiá-lo?”, conta Bruno Rico. O relato foi feito no blog “Sentimento Crítico” que alimenta desde 2009.

“Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Seu Jorge tem muita autonomia para declamar “negro drama” em um palco. Um cara que morou na rua, passou fome, sofreu preconceito, e hoje é o que é mundialmente, tanto quanto músico, como ator, tem sim muita propriedade para se intitular um negro drama”, complementa o blogueiro.

Ainda de acordo com Bru.Rico, as vaias não intimidaram Seu Jorge, que prosseguiu “firme como o seu homônimo santo da Capadócia”. “Quando a declamação chegou na parte do Brown, as vaias já eram bem mais expressivas, alguns até vociferavam um coro de: “canta, canta, canta! Aquelas vaias ecoavam vários significados: preconceito, ignorância, intolerância, alienação. E isso tudo em pleno 2012” , acrescenta.

O blogueiro relata ainda que, depois de declamar “Negro Drama”, as luzes do palco foram apagadas e houve silêncio. Ao serem reacendidas, Seu Jorge teria discursado sobre a importância da música.

“Quando eu toco na França eles falam muito bem do Brasil. Lá eles falam que se você for branco, bonito e tiver uma faculdade, o Brasil é o lugar para ir. Portanto, vocês que são brancos, bonitos, possuem uma faculdade e o papai dá tudo, aproveitem, pois tem alguém de olho no emprego de vocês”, teria afirmado o cantor, segundo o blogueiro.

Em meio a aplausos e vaias Seu Jorge teria continuado. “Essa música ‘negro drama’ tem muito significado pra mim e nos meus shows ela vem seguida de ‘zé do caroço’. Vivemos em um país onde a maioria das pessoas luta pra caramba e permanece na miséria, um país onde a classe trabalhadora não é respeitada, e tudo isso tem que ser dito. Joaquim Barbosa lavava o chão do lugar onde hoje ele é ministro chefe, um cara negro, que nasceu pobre, estudou em escola pública, e hoje é o que é, hoje fez o que fez, o cara bateu na cabeça dos políticos, condenou muita gente, mesmo que não dê em nada ele fez o seu papel, condenou, em um país onde não se condena político ele foi lá e fez, tinha que ser um negão pra fazer um bagulho desses”.

“Ninguém é obrigado a gostar de nada, mas as pessoas precisam aprender a ter respeito, e foi isso que faltou no show. Muita gente certamente não gostou da declamação de “negro drama”, tudo bem, é um direito, mas chegar ao ponto de vaiar soa muito radical e preconceituoso”, opina o blogueiro.

O Correio Nagô entrou em contato com a assessoria do cantor na tarde desta quarta-feira (31), mas até às 15h do dia seguinte não recebeu nenhuma resposta.

 

 

 

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Comentário de Instituto Mídia Étnica em 23 novembro 2012 às 11:10

Prezados, os comentários feitos abaixo que violavam a política do site foram removidos, conforme a nossa política de comentários que pode ser acessada no link abaixo

http://api.ning.com:80/files/DDYrZf1fYc7t0ut3txUpbP2W2PCGPmjjJANSfDRJR*0-ozO6-kBMwv4Wf9C6k8uX8*E7jtecROjl1Gb3npwqzCD8q4cpRTaZ/TermoseCondiesdeUso.pdf

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 7 novembro 2012 às 23:04

Olá Cunha!  Obrigado pela atenção dispensada a meus argumentos.  E prosseguindo no debate, agora motivado por sua tese instigante, proponho considere, então, o fato de que se acusamos um grupo fenotípico em específico, diverso do nosso, de ser nossos algozes raciais, então, somos obrigados a reconhecer que estamos em relação.  E, neste caso, embora em posições distintas, a saber: um, de algoz e, outro, de vítima, comungamos de uma mesma realidade.  Logo, não procede o argumento de um membro do grupo suposto algoz, ao se manifestar sobre a realidade que tal, discorra sobre uma realidade que não é a sua.

Vou mais além e lhe convido a refletir quanto ao fato de que se é mesmo verdade sua tese de que um homem branco não pode falar da realidade de vitimização racial que supostamente sofre um homem negro, se torna imediatamente verdade que um homem negro - como é o nosso caso - não pode falar da realidade de vilania racial que supostamente pratica um homem branco.  Isto é, se um branco não tem como saber se um negro sofre ou não racismo; um negro também não tem como saber se um branco pratica ou não racismo.

Particularmente, não acredito nisso.  Até por força de minha formação, não posso acreditar que alguém porque não viveu uma situação não seja capaz de entendê-la e de intervir, qualitativamente, sobre ela.  Tampouco posso crer que alguém, apenas porque viveu uma situação seja capaz de entendê-la e de intervir, qualitativamente, sobre ela.  Um exemplo tão simples quanto contundente do que digo reside no caso do médico oncologista que, embora possa jamais ter sido vítima de um câncer, sabe seguramente mais sobre a doença do que seu paciente, portador da enfermidade.

Dito isto, torno a insistir em que pensemos sobre o assunto, prosseguindo no debate.  Sem, contudo, deixarmos de pensar no desafio que de la Orden observou e sintetizou à perfeição: "como descrever problemas reais de preconceito, discriminação, exclusão e racismo sem super-expor e desgastar a importância destas questões ou pior fazê-las parecer um problema de uma parcela da população ao invés de um problema real de toda a sociedade brasileira?"

Forte e fraternal abraço

José Augusto Conceição

Comentário de Paulo Cunha em 7 novembro 2012 às 22:15

Obrigado pelo esclarecimento José Augusto da Conceição; mas continuo com a opinião de que uma pessoa não deve falar sobre uma realidade que não é a sua!

Comentário de Luis de la Orden Morais em 7 novembro 2012 às 14:53

Progressismo racial funciona:

http://player.vimeo.com/video/52482581

Comentário de Luis de la Orden Morais em 6 novembro 2012 às 22:16

José,

Fico tocado com sua intervenção fraternal. Muito obrigado.

Incrível texto!

Comentário de Inaiá Boa Morte Santos em 6 novembro 2012 às 11:23

A evolução dos brasileiro está muito distante a chegar, Deus é mais.

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 6 novembro 2012 às 8:30

Quero voltar a esta página, primeiramente, para agradecer a Luis de la Orden Morais a gentileza de haver comentado minha mensagem anterior.  Em seguida, parabenizá-lo pela qualidade de sua intervenção e, então, lançar, aqui, um esclarecimento relativamente à crítica à atualidade do movimento negro.  Pois, do que me lembro, não foi Luis e sim Eu quem afirmou o anacronismo do discurso deste movimento social.

Os fundamentos de minha crítica se encontram, nesta página, em mensagem anterior.  E, mais detalhadamente, na mensagem que postei em comento ao caso Magdalena.  E têm lastro em estudos e pesquisas que realizei, aqui, no Rio de Janeiro sobre contato interétnico e fronteiras psicossociais.

Cito o lugar de onde falo porque penso tendo o Brasil 8.502.728Km², distribuídos em 05 regiões, repartidos por 27 unidades federadas, organizadas em 5564 municipalidades é algo bastante difícil discorrer sobre problemas que tais, em termos nacionais, sem risco de cometer impropriedades.

Tenho, pois, por seguro, que a realidade das relações interétnicas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro não corresponde in totum à realidade da mesma natureza que se pode verificar nas demais regiões do Estado.  Estou, portanto, ainda mais seguro de que ha variações ainda maiores entre os Estados da federação e tanto mais entre as 05 grandes regiões da federação.

Logo, quando falo do anacronismo do discurso do movimento negro, refiro-me a uma realidade tipicamente fluminense e, tanto mais, carioca.  Ainda que reconheça traços em comum com realidades como a de São Paulo e Belo Horizonte (não por acaso, ambas capitais de Estados da mesma Região Sudeste).

Porque, como afirmei acima, já expus os fundamentos de minhas críticas em mensagens anteriores, entendo desnecessário repetí-los aqui.  Quero agora, então,  contra-argumentar um ponto da mensagem que me endereçou Luis de la Orden Morais.  Precisamente, o que toca à frase: "Eu acredito que existe um lugar para o Movimento Negro (dentro dos moldes dos anos 70 que ainda vivemos no Brasil), e este é o da militância, negociação e resistência aos setores mais inflexíveis da sociedade."

Esta afirmação que evidencia a injustiça do ataque que se fez, nesta página, a Luis de la Orden Morais conta com meu respeito, enquanto uma manifestação de fé e opinão, já que de la Orden inaugura a frase com a expressão "eu acredito".  Todavia, não comungo de sua posição porque penso que o fato deste discurso que aponto anacrônico encontrar-se difundido entre às populações negras já é o bastante para que estas acionem um tal discurso e outros instrumentos com ele relacionados sempre que diante dos tais setores mais inflexíveis da sociedade com os quais tenham de negociar ou resistir.  Sendo, pois, desnecessário e inconveniente termos duas sortes de movimento negro, uma voltada para os setores conservadores e outra para os setores progressistas do país.

A bem da verdade, estes dois movimentos negros já se vão prenunciando.  Porém, como evidencia a resposta agressiva que de la Orden colheu, o surgimento de um novo discurso (pauta e agenda) de base para este movimento aponta para a cizânia; e, não para a convivência de dois termos complementares, como de la Orden acredita ser possível.

Volto-me, agora, a um outro ponto do discurso de de la Orden o qual reputo da maior significância.  Trata-se daí ao desafio que, de fato, temos diante de nós e que ele - de la Orden - magistralmente sintetizou nos termos seguintes: "como descrever problemas reais de preconceito, discriminação, exclusão e racismo sem super-expor e desgastar a importância destas questões ou pior fazê-las parecer um problema de uma parcela da população ao invés de um problema real de toda a sociedade brasileira?"

É esta questão posta por de la Orden que, para nosso próprio bem, merece de nós uma resposta tão séria quanto serena.  Despida, portanto, de arrobos, bravatas, histerias e impropérios que não levam a nada além da própria desqualificação de quem delas faz uso.

Por fim e muito à propósito - para quem não sabe: sou negro.

Comentário de Vanessa Aragão em 5 novembro 2012 às 10:57

Fui a um show dele a pouco tempo.. E lindo ver ele declamar, passa ao pública que realmente sabe fazer.. Amo seu Jorge. E como todo artista deve ser respeitado

Comentário de Luis de la Orden Morais em 4 novembro 2012 às 19:47

José,

Aqui, ao tratar do episódio Magdalena, já discuti a questão do vencimento deste discurso desenvolvido pelo movimento negro moderno e a necessidade de sua superação.  Encerro esta longa mensagem, sugerindo: (1) nosso distanciamento deste fundamentalismo étnico (suposto racial) que reduz ao racismo todo o universo em que se insere o negro; e (2) passemos a nos esforçar por ouvir e, especialmente, por entender o que o outronos quer dizer, sem simplesmente tentar calá-lo sob a acusação de ser racista.  Temos, todos, muito a ganhar com isso.

Há alguns anos atrás, quando eu estava voltando do trabalho para casa eu fui oferecido um panfleto por um integrante de um dos vários movimentos negros em ação no Reino Unido. Era acerca de um cidadão negro que fora preso segundo os autores do panfleto "injustamente". 

 

O folheto seguia por duas páginas falando acerca de "opressão", "racismo", "políticas raciais", "ativismo militante", basicamente um sumário do discurso dos movimentos de resistência negra que você comenta. Eu escrevi para o email dado no panfleto, perguntando por mais informação acerca da pessoa em questão pois o mesmo só havia recebido dois parágrafos espremidos entre outros tantos com um discurso político que francamente pouco se fazia claro. Nunca obtive resposta, nem sequer um website, um blogue onde pudesse ler mais acerca do cidadão.

 

Eu acredito que existe um lugar para o Movimento Negro (dentro dos moldes dos anos 70 que ainda vivemos no Brasil), e este é o da militância, negociação e resistência aos setores mais inflexíveis da sociedade. Uma tropa de choque intelectual que grita de volta a verdade que muitos não querem ouvir. Entretanto eu não nutro nenhuma ilusão sobre a agenda inclusiva de alguns membros do mesmo movimento, eu também não adoto a atitude paternalista de muitos "brancos" em favor da inclusão racial como eu de tentar entender a atitude hostil de certos membros do movimento como uma reação esperada e natural resultante do sofrimento baixo o jugo do homem branco. Todos nós temos muito a perder com uma sociedade racializada e dividida entre "nós os negros e eles os brancos".

 

Essa é a parte do discurso dos anos 70 que eu não vejo como se encaixa dentro do tempo que vivemos e que você tão habilmente descreveu, mas o desafio do Movimento Negro brasileiro é militar por igualdade racial (igualdade, sempre igualdade) em um País onde vivemos duas realidades paralelas, uma de aberta discriminação e racismo dos anos 70 e outra dos anos 10 do século 21. 

 

Se posso abrir um adendo dentro da minha linha de pensamento, eu não sou inclusivista por sentimento de culpa por ser branco, muito embora tenha sangue negro, o qual não utilizarei como bilhete de entrada, abadá ou passaporte VIP para justificar minha presença nestas discussões no Correio Nagô, para mim a inclusão racial faz sentido e a discriminação é um atitude de inferioridade intelectual e espiritual, os quais eu não quero ver acontencendo no meu País, ponto final. A minha convicção como ser humano é forte o bastante para protestar por mudanças ainda que eu fosse ariano ou caucasiano puro. O que eu não quero é uma sociedade racializada como ocorre nos Estados Unidos, com brancos de um lado e negros do outro. 

 

Eu estou de acordo que não podemos chamar de racismo tudo que pareça sê-lo, não se enganem, calar as pessoas com o medo de serem taxadas como racistas é bastante eficiente para retirar o burburinho anti-inclusivista e até racista da mídia e das conversas do dia-a-dia, mas não derrota o racismo, preconceito ou discriminação. O que ocorrerá é simplesmente a adição de personagens negros nas capas de revista e programas de TV e o racismo ao invés de desaparecer se tornará ainda mais sutil e secreto. Para ser sincero, eu sou tentado a pensar que isto já seria uma grande melhora, mas pensar assim traíria em minha opinião o que realmente desejamos alcançar: um ambiente psicológico são e honesto onde todos possam conviver e crescer, além do mais precisamos chegar a um ponto onde não estamos nivelando tudo por baixo por falta de padrões reais.

 

Pois então, pelo o que eu vejo, nós não só temos um problema de imagem (escassez de imagens positivas do cidadão negro) mas também um problema de linguagem: como descrever problemas reais de preconceito, discriminação, exclusão e racismo sem super-expor e desgastar a importância destas questões ou pior fazê-las parecer um problema de uma parcela da população ao invés de um problema real de toda a sociedade brasileira? 

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 4 novembro 2012 às 15:14

Errata: onde em minha mensagem se lê: Circo Voador; leia-se: Fundição Progresso.

Translation:

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