“SEXO E AS NEGAS” UM SERIADO OU OUTRO PACOTE RACISTA?

 

Caras (os) Amigas (os)

Motivada pela indignação e pelo exercício da cidadania, na condição de educadora e mãe de adolescente, e, principalmente, por ser uma mulher negra, trago, através deste meio de comunicação, um protesto que não é solitário. Tenho certeza que nossa capacidade intelectual e crítica, poder de organização e questionamentos com ênfases em fatos históricos e sociais podem modificar a postura de uma mídia autoritária que reforça os estereótipos negativos do homem negro e da mulher negra.

Os níveis de audiência é o objetivo da mídia televisiva, consequentemente os índices do IBOPE, os quais dependem categoricamente de um público satisfeito e respeitado nos seus princípios e valores, apesar do índice de analfabetismo infelizmente ser um fator relevante na nossa sociedade, em contrapartida existe um considerável número de pessoas informadas e críticas da realidade que as cercam. Por estas e outras razões, espero que possamos debater de forma objetiva as reais intenções do seriado que a Rede Globo pretende levar ao ar “Sexo e as negas”. Segundo o autor do seriado Miguel Falabela, o mesmo é uma paródia do seriado americano “Sex and City”, este último ocorre na cidade de Ney York e suas protagonistas são representadas por mulheres brancas com formação acadêmica: jornalista, advogada, relações públicas, proprietária de uma galeria de artes. As nossas “negas” moram no subúrbio, sem formação acadêmica, são camareira, costureira, operária e cozinheira, as quatro buscam na série brasileira um parceiro sexual.

O mais caricato que li deste seriado é a proposta de discutir o racismo, e pasmem com as palavras do próprio autor:

Eu falo de mulheres que, por acaso, moram em uma comunidade, mas que querem ficar bonitas, querem arrumar homens que as amem e que cuidem de suas possíveis crias. É como qualquer outra mulher no mundo! São quatro mulheres negras de Cordovil, com os mesmos dramas das nova-iorquinas. Elas são vibrantes, extremamente arrumadas e donas de outra relação com o corpo", explica Falabella.” (http://www.cafecomnoticias.com/2014/09/sexo-e-as-negas-quer-dar-um-...)

 

Será que foi escolhido por acaso o local onde estas mulheres negras moram? Querem ficar bonitas, em que sentido a expressão é usada? Querem arrumar homens que cuidem de suas crias? A realidade das mulheres nova-iorquinas é igual as nossas?

“Entre as principais conquistas da luta pela emancipação feminina, que é “subjetiva e objetiva”, está o respeito que vemos conquistado. Hoje somos muito mais respeitadas do que no passado, quando éramos chamadas de “mal amadas”, “as que davam chilique”. Hoje as feministas formulam, incidem, acabam criando, são ouvidas, têm audiência em governos sérios. Está no ponto ideal? Não, mas está muito melhor que há 40 anos, além disso, as vitórias, como a conquista de legislação voltada para as mulheres, a ampliação da participação feminina no mercado de trabalho, o aumento da escolaridade, e a redução do número de analfabetismo. Tudo isso é fruto dessa luta, dos movimentos e de coragem das mulheres brasileiras.” Ministra Iriny Lopes (foi chefe da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do governo de Dilma)

 

É lamentável perceber a importância das personagens de uma forma distorcida e o contraditório de que a série contempla um novo olhar sobre a população negra fazendo a diferença, se realmente fosse verdadeira esta afirmação nossas personagens não representariam os mesmos papeis dos primórdios da televisão brasileira, onde a elas era e é reservado os papeis subalternos de criadas, escravas, serviçais, domésticas, etc.

 

“Qualquer personagem negro: entra como estereótipo de si mesmo, e nunca como representação de qualquer ser humano. Esse privilégio somente é dado aos brancos.” Joel Zito Araújo.

 

 Cada um de nós cidadãos brasileiros, responsáveis por uma parte na construção da nossa história temos o dever de nos posicionar na contramão do preconceito instituído no Brasil de forma explicita ou nas entrelinhas.

Lutar por nossos ideais é o que nos torna dignos de sermos humanos, espero que nossa voz de indignação possa emitir eco contra a hegemonia do capital que domina todos os setores do país, entre os quais a mídia representada neste caso pelo complexo que é a Rede Globo.

 

Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.” Martin Luther King.

 

Acredito que meus descendentes viverão em um mundo com direitos igualitários onde a cor da pele será apenas um detalhe, como afirmou Luther King, por conseguinte companheiros, na ausência de uma política anti - racista satisfatória, a resistência é uma arma eficaz que herdamos dos nossos antepassados, juntos seremos sempre mais.

 

Cecília Peixoto

Bacharel em Direito e Contábeis, Educadora (formação em Pedagogia e Matemática), Integrante do CEPA ( Círculo de Estudo Pensamento e Ação – Ba), Militante do Movimento Negro, Secretária Geral do Movimento Negro do PDT-BA.

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