A UFBA vive um importante momento em torno da escolha do(a) futuro(a) Reitor(a), após 8 anos de gestão do Professor Naomar de Almeida. Neste último período a universidade experimentou importantes modificações, interrompendo um ciclo de estagnação que durou décadas.

Dentre as modificações desenvolvidas, destaca-se a implantação das políticas de ação afirmativa para o ingresso na universidade, demanda dos movimentos negros, assimilada pelas instâncias universitárias. Esta foi, indubitavelmente, a mais significativa modificação experimentada pela Universidade, interrompendo um longo ciclo de apropriação injusta e desigual das oportunidades de acesso ao ensino superior público em nosso estado.

A adoção das políticas de ação afirmativa, que asseguram o acesso de estudantes oriundos das escolas públicas, negros e indígenas, trouxe um sopro de renovação na composição sócio-econômica e étnico-racial, reduzindo o elitismo e aproximando o perfil da UFBA da realidade sócio-cultural e demográfica da Bahia.

Cabe registrar que as profecias dos intolerantes à democratização da universidade fracassaram completamente. O desempenho acadêmico dos denominados cotistas não comprometeu a qualidade universitária, tampouco instituiu ou acirrou rivalidades classistas ou étnico-raciais.

Entretanto, a experiência inicial de democratização da universidade não se desenvolveu completamente. Inexiste uma política de assistência estudantil adequada ao atendimento das demandas específicas dos cotistas, ocasionando imensas dificuldades para a permanência e o pleno aproveitamento das potencialidades acadêmicas. O caráter monocultural, etnocêntrico e epistemicida que caracteriza a universidade no domínio epistemológico, programático, institucional e simbólico continuam intactos, sem qualquer indicativo de abertura para uma reorientação pluricultural. A política de pós-graduação manteve-se inalterada injustificadamente, impermeável às demandas de democratização e pluralidade viabilizadas pelas ações afirmativas.

Diante desta situação, chama a atenção, no contexto do debate e da campanha eleitoral para a escolha do (a) futuro(a) Reitor(a), o estranho silêncio acerca da temática. Exceto diante da provocação feita pela APUB, indagando a posição dos candidatos acerca das ações afirmativas, respondida de forma lacônica e evasiva, as candidaturas apresentadas não posicionam-se sobre o assunto. Trata-se de um importante indicativo da ausência de um firme compromisso dos concorrentes com a manutenção das ações afirmativas, sua consolidação e ampliação. Trata-se de um silêncio nada inocente que deve ser interpretado criticamente, manifestando-se numa cobrança pela manifestação expressa das candidaturas. Caso contrário, merece a silenciosa e eloqüente resposta do voto nulo durante o pleito que se avizinha.

Samuel Vida

Professor da Faculdade de Direito da Ufba

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