Sobre Eu, o Tu e o Nós: o que tenho acompanhado nessa transição governamental

O racismo na cena política brasileira, tem conseqüências claras na condução da política de   igualdade e formal entre todos os brasileiros. Como não quero me alongar sobre esse ponto, convido - os a conhecer alguns trabalhos sobre o período e o que vivemos nos dias atuais para isso sugiro ler: A escola Nina Rodrigues, de Mariza Corrêa (1998) e também O Espetáculo das Raças, de Lilia Schwarcz.  

O primeiro ponto a ser observado no racismo brasileiro, é que este não deve ser entendido apenas como busca da igualdade legal entre cidadãos formais.  A "situação racial" brasileira mostra que essa questão ainda é mantida intacta na esfera institucional e relaciona-se aos benefícios materiais e simbólicos que determinado segmento obtém na desqualificação dos não brancos, legitimado por um  discurso da tecnicidade nunca explicado. Sempre tivemos dificuldade para ocupar a composição governamental em diferentes regimes de Estado, que independente da sigla, sempre define os mecanismos invisíveis (ou invisibilizados) que favorecem a reprodução ampliada do “lugar negro”, nas pastas governamentais. Esses mecanismos regulamenta o conflito distributivo, sem pôr em risco a reprodução do sistema ou discurso de um país que vem superando o racismo e combatendo as desigualdades com oportunidades “iguais”.

A transição governamental mostra que em todas as esferas os gestores públicos absolveu  a idéia e o compromisso de  combate as desigualdades e o racismo, mas por outro lado demonstram que  a cor dos indivíduos tem  grande peso  não somente na  ocupação do  espaço públicos, mas nos próprios organismos  governamental. E esse é o grande problema, pois a cada governo ao invés de nossa presença aumentar nos espaços de gestão institucionalizada, por conta da compreensão de que a nossa não ocupação de espaço se dá pelo racismo institucional, essa realidade vem sendo mantido no mesmo patamar de quando  o Brasil não mostrava nenhum interesse em aceitar essa situação racial.

A tão comemorada democracia se mostra um mito contado com primor e que nos convida a uma reflexão sobre o caráter real da “democracia” no Brasil e o processo de convocação e formação dos novos atores para a  gestão pública. A transição dos governos estão  sendo o grande palco de comprovação  que  mesmo com profissionais e ativistas sociais negros  qualificados  e oriundos  das primeiras políticas de superação do racismo, esses  encontram resistências para  à sua absorção no corpo técnico nas gestões  públicas brasileiras em cargos de comando.

O discurso que vem se consolidado no imaginário social de que  o racismo é uma pauta que qualquer um pode tocar,  precisa ser cuidadoso. Não temos dúvida da necessidade de outras vozes e atores atuando para a alteração desta situação, mas esses  novos atores não podem invisibilizar nossa luta e vozes garantindo a qualquer segmentos ou individuo essa fala, menos aos que  vivem e combate  ao racismo no cotidiano. O resultado deste modelo da pauta racial como domínio público, é uma relação antropofágica de quadros e referência negras que levamos anos formando e qualificado para atender ao discurso governamental de tecnicismo, que faz com que o tão comemorado “avanço da pauta  racial”,  não  seja   notado de maneira comum  na composição  das  gestões públicas.

Porque digo isso? Porque olhando o organograma dos ministérios achei 17 coordenações, somente em minha área de atuação  que o gestor poderia ser qualquer um  de nós homens e mulheres negras. Ao constatar essa situação a pergunta que me vem a cabeça é, afinal o que é essa tão alardeada democracia racial brasileira, defendida por militantes  e gestores brancos em seus discursos? Por que gestores que fazem falas tão brilhantes de compreensão da necessidade de alteração do racismo, não nos ver em outras coordenações ministeriais que não os organismos de Promoção de Igualdade ou Palmares?  Que transversalidade é essa defendida pelos gestores para não injetar recursos nessas secretarias raciais, mas que não serve para nos colocar em outros espaços do governo com poder de decisão?

A realidade é que a “absorção da pauta racial” pelos governos não passa da legitimação da ideologia construída sobre uma “falsa consciência racial ” e que tem como efeito concreto a reprodução ampliada das desigualdades  e racismo  comprovando que na compreensão de determinados segmentos o 'problema racial' é algo mais acadêmico que pragmático e real. Um exemplo concreto é que dificilmente um ministro, secretário ou coordenador não negro, sai do governo sem saber onde será alocado, enquanto que os nossos quadros são tirados ou colocados  de maneira tão violenta sem que possam pensar ou sejam indicados para outros espaços onde seu aprendizado  podem  ser usado.

Portanto, qualquer  que venha a ser a dinâmica de alteração do preconceito e racismo, elas não alteraram significativamente a realidade pungente que nos preocupa. Ao contrario, esse modelo de manutenção do status quo é usado na invisibilidade  voluntária dos quadros negros para os demais setores governamentais, confirmando que os processos que moldam as estruturas sociais, econômicas e de personalidade estão profundamente arraigadas. Isso quer dizer que quando se é negro (a) não basta, lutar pela cidadania defendendo um projeto de  esquerda. É preciso definir a qualidade desta cidadania e, simultaneamente, organizar-se enquanto setor diferenciado no interior deste projeto. E isso ocorre porque a luta contra o racismo ainda não foi suficientemente abraçada por todos aqueles que, independente da cor, acreditam e lutam por uma sociedade plenamente democrática e justa.

 

Luciane Reis, Publicitária co-fundadora do Instituto Mídia Étnica e eternamente inquieta com o formato de organização negra no Brasil.

 

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