Sobrou para a Macumba? por Olívia Santana

As desatinadas declarações do Cônsul-geral do Haiti no Brasil, Senhor George Samuel Antoine, desmontaram o sentido da diplomacia que ele deveria preservar e representar. Ao dizer que a catástrofe que devastou o seu país se deu de tanto o povo haitiano mexer com macumba, Antoine deu vazão ao seu pensamento racista, intolerante, típico de quem não conseguiu livrar-se das amarras do anacrônico preconceito que sedimentou o processo de colonização imposto aos africanos e suas gerações no Haiti e em outras partes das Américas e do mundo.

O que foi dito não se apagou com o formal pedido de desculpas elaborado às pressas pela equipe do consulado. Valeria mais a entrega do cargo, para poupar os haitianos da triste vergonha de ter alguém inapto a representá-los. Conscientemente ou não o cônsul preferiu mascarar a realidade a admitir as verdadeiras razões para o infortúnio vivido pela população daquele país. Sua afirmação de que o africano em si tem maldição, que "todo lugar que tem africano, lá tá f...", tem menos a ver com o sobrenatural e tudo a ver com os fatos objetivos que marcaram a dominação francesa na antiga ilha caribenha de São Domingos, sob a forma de colonialismo e de escravidão.

Os negros traficados da África para garantir o regime francês de exploração de açúcar, de café, durante séculos, nunca usufruíram do fato de o Haiti ter-se tornado a maior potência mundial em produção açucareira. Eram apenas a força motriz da produção, a mão de obra gratuita que forçosamente garantia o acúmulo de capital que desenvolveu a França e outros países da velha Europa.

A revolta escrava, liderada por Toussanint L´ouverture, em 1791, que resultou na conquista da Independência em 1804, foi um marco na história de luta por liberdade e soberania nas Américas, mas o Haiti tornou-se terra arrasada. Os colonizadores foram vencidos, porém já haviam usufruído fartamente das riquezas. Restou ao povo haitiano a sua cultura, a fé nos vodus, o desejo de superar a miséria, ainda que lhe faltassem o domínio dos meios de produção, dos canais de propulsão de relações comerciais mais amplas, tecnologia, sistema educacional e um ambiente internacional favorável ao processo de desenvolvimento e afirmação da sua soberania. Os haitianos jamais tiveram paz. Sofreram com as intervenções napoleônicas, com as ditaduras e com as manipulações e intervenção de grandes potências, que lhe garrotearam o desenvolvimento. A derrubada do único presidente eleito, Jean Bertrand Aristide, a partir de uma articulação dos EUA e da França, mergulhou o país no mais profundo caos. E desde então os haitianos viveram com o seu território sob ocupação estrangeira.

Terremotos, tsunamis, furacões são fenômenos naturais, muitos deles causados pela devastação que se faz da natureza em nome de um progresso divorciado da ideia de sustentabilidade e equilíbrio ambiental. Quando as catástrofes acontecem, os segmentos mais frágeis acabam pagando o preço. Vale relembrar os efeitos do furacão Katrina em Nova Orleans, que fez avançar as águas do lago Pontchartrain, inundando e enlutando a melódica terra do jazz. Expôs-se aí, a vulnerável face africana dos EUA aos olhos do globo.

A ajuda humanitária das grandes potências ficaria mais bem posta sob o título de Reparação, pois há que se reconhecer que o Haiti paga até hoje a ousadia de ter realizado a primeira revolta negra que tanto assustou o mundo. O país grita por medidas estruturais, por um plano de soerguimento, por autonomia para explorar suas riquezas naturais, para desenvolver seu potencial turístico, cultural, ter acesso às novas tecnologias e aos benefícios da ciência. Urge a realização de mudanças nas políticas migratórias, para que não existam haitianos sofrendo repressão das políticas anti-migratórias.

Ao invés de se atacar a macumba, as religiões de matriz africana, há que se combater uma ordem mundial perversa e excludente, que se converte em maldição contra os direitos básicos da maioria dos povos (principalmente os negros). Que rufem os tambores e se entoem os cânticos em respeito às vítimas e em favor da vida do povo haitiano.

Olívia Santana
Vereadora e militante da UNEGRO



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Publicado no Jornal A Tarde, no dia 22/01/10. O artigo teve grande repercussão entre os leitores, o que resultou em inúmeras ligações telefônicas de elogio à vereadora.

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Comentário de cláudio rebello em 2 fevereiro 2010 às 16:46
Muito bem pontuado vereadora Olívia , nunca é demais cartografar a trajetória histórica do povo haitiano , para que se perceba que não é uma declaração reacista e improcedente que vai apagar o emblema de povo guerreiro e orgulhoso de suas tradições ancestrais . terremotos deveriam tirar de cena pessoas que pensam como o Cônsul !!bravo

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