Mais uma situação absurda na cobertura desta Copa do Mundo. Repórter das organizações Globo escreveu que nossa história é de acomodação e da África do Sul de confronto. Quer dizer que nós herdamos 400 anos de escravidão acomodados? Que nossa segregação nas favelas é pacífica?

Olha que o colunista do Globo.com e apresentador da Sportv Marcelo Barreto escreveu: Andando pelos corredores do Museu do Apartheid, a comparação não me saía da cabeça. Nossa história é
diferente, de acomodação em vez de confronto. Foi assim na questão
racial e também no problema das favelas, fundamental para o nascimento
das leis de segregação racial – separar os africâneres pobres de seus
vizinhos negros era uma das grandes preocupações do governo da minoria
branca.



Segue o artigo na íntegra:

http://colunas.sportv.globo.com/marcelobarreto/2010/07/06/ecos-do-m...

Ecos do Museu do Apartheid

ter, 06/07/10
por marcelo barreto |
categoria Copa 2010



Voltei hoje ao Museu do Apartheid. Fica bem do lado do meu hotel, mas ainda não tinha encontrado tempo para uma visita – estive lá no ano passado,
mas com as horas contadas, e há muito planejava uma segunda visita para
ver e ler tudo com calma. Vou precisar de uma terceira. Só consegui
chegar até a década de 60, justamente quando começava a tomar corpo a
resistência que terminaria com a eleição de Nelson Mandela presidente,
nos anos 90. Ainda pensava nas imagens chocantes expostas num ambiente
que – propositalmente – lembra o de uma prisão enquanto assistia a
Holanda x Uruguai, pela semifinal da Copa do Mundo da África do Sul.

Foi da Holanda que saíram os vortrekkers, colonizadores que migraram para o interior da África do Sul depois da chegada dos ingleses. E foi um governo formado por
descendentes desses pioneiros, chamados de africâneres, que alimentou o
sonho de uma sociedade branca em solo africano e promulgou a sequência
de leis restritivas à participação dos negros, que ganhou o nome de
apartheid. Não pareceria exagero imaginar que os sul-africanos
prefeririam ver esse país fora da final de sua Copa.

Mas não foi esse o sentimento que se viu pelas ruas. Flávia Oliveira, colunista de O Globo, visitou uma favela de Joanesburgo antes do jogo para saber o sentimento dos
moradores com relação à Holanda. E conseguiu uma bela resposta de um
jovem: “É como se o Brasil tivesse saído da Copa e Portugal
continuasse. Vocês deixariam de torcer pelos portugueses por eles terem
colonizado seu país? Pelo contrário, são nossas origens.” Andando pelos
corredores do Museu do Apartheid, a comparação não me saía da cabeça.
Nossa história é diferente, de acomodação em vez de confronto. Foi
assim na questão racial e também no problema das favelas, fundamental
para o nascimento das leis de segregação racial – separar os
africâneres pobres de seus vizinhos negros era uma das grandes
preocupações do governo da minoria branca.

Pensei também no que vi na Alemanha, em 2006, e agora revejo pela TV na Fan Fest de Berlim: jovens alemães, ocidentais e orientais, levando às ruas
a bandeira do país unificado – um gesto que, aprendi lá, não era comum
antes daquela Copa. A herança do país nazista que perdeu a guerra e dos
tempos do Muro de Berlim não se apaga facilmente, e não seria o futebol
a fazê-lo. Mas as novas gerações querem viver outra vida, querem olhar
para o futuro. Os alemães que torceram pela Alemanha e os sul-africanos
que simpatizaram com a Holanda viraram a página.

E nem foi a Holanda a personagem principal da semifinal de hoje. A grande história desta Copa do Mundo é a do Uruguai, o país sul-americano que foi mais longe no que um dia foi
chamada a Copa América do Mundial. Classificado na repescagem, passando
sufoco contra a Costa Rica, o time de Oscar Tabarez se achou na África
do Sul. O sistema de jogo com Forlán recuado, armando com Cavani as
jogadas que ele mesmo e Suárez finalizavam, entrou em campo aqui. E
trouxe de volta ao mundo do futebol a primeira potência da história do
esporte.

Foi do Uruguai o grande jogo desta Copa, que nem tive tempo de comentar neste blog, o épico contra Gana. A defesa de Suárez no último minuto da
prorrogação é a grande jogada da competição até agora, e sua reação ao
erro de Gyan, no corredor de saída, a maior imagem. E a Celeste
abandonou a disputa pelo título honrando a imagem que construiu,
marcando um gol no finzinho e sufocando a Holanda até o apito final.

Alemães torcendo pela Alemanha, sul-africanos simpatizando com a Holanda, uruguaios redescobrindo o Uruguai. Pode ser o clima de fim de cobertura, pode ser o impacto do
Museu do Apartheid, mas não sei não. Estou com a impressão de que o
futebol está vencendo esta Copa.




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Comentário de Cau Sansil em 7 julho 2010 às 21:49
Feliz observação Pedro, é irritante como alguns indivíduos insistem em defender a idéia de que os afrodecendentes brasileiros e até mesmo os africanos vindo para o Brasil aceitaram a dominação passivamente. Insistem em reproduzir um discurso que deprecia a identidade do negro brasileiro. Posso estar errada, mas percebo que a diferença entre as reações dos negros sulafricanos e dos brasileiros possa está na forma que a segregação e o racismo se deu em cada país. Enquanto lá houve uma segregação explicita, aki tudo ocorreu de forma velada e por isso alguns afirmem, até hoje, que o Brasil é um país livre do racismo, o que nós negros sabemos que é uma mentira, simplesmente pq sentimos na pele o que realmente acontece. Talvez a forma que ocorreu a segregação brasileira (às escuras) possa ter sido uma estratégia para evitar um confronto duro 'corpo a corpo', reconheço com isso que AQUI houve sim, resistência, houve e há. grande abraço.

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