“Sou negra e apaixonada por mim mesma’’, Delegada Vilma Alves ao Correio Nagô

                                                                                                               Delegada Vilma Alves

Vilma Alves, a Delegada Titular da Delegacia da Mulher de Teresina, sempre foi figura conhecida no estado do Piauí. Mulher negra e a primeira nesta condição a ocupar um cargo de polícia no Estado. Antes dela, nem homens negros existiam na instituição. Já foi vereadora de Teresina e também tem experiência como professora, o que segundo ela, ajuda bastante no posto de delegada e na metodologia adotada nessa profissão, que requer pulso firme com alguns homens agressores e na conscientização destes antes de agredir.

Foi devido a isso que a delegada assumiu o papel de ‘’celebridade’’, ultrapassando as fronteiras do estado e ganhando notoriedade nacional, através do rigor com o qual ela trata os opressores e violentadores de mulheres no Piauí. Mesmo com o modo de trabalhar de Vilma Alves, nem tudo são flashes para ela como alguns podem pensar, até mesmo porque ainda hoje, quem carrega a cor negra em qualquer lugar da sociedade ainda tem um caminho mais difícil a percorrer. A delegada contou ao Correio Nagô que mesmo sendo delegada de polícia, ela sofre, sim, preconceito por ser mulher negra. Segundo ela, são fatídicas as cenas em que os homens agressores tentam deslegitimar o trabalho dela para as mulheres através da cor de sua pele. Ela esclarece que mulheres já chegaram dizendo-lhe: ‘‘Meu marido disse que a senhora é negra’’. A delegada Vilma então perguntou se ela não era negra mesmo e a mulher respondeu ‘’Ah, mas ele disse que a senhora é negra e feia’. Ela ainda relata que quando foi Corregedora Geral do Município, havia homens que falavam: ‘’Não vou dar o revólver pra essa negra, ela só quer ser’’, referindo-se ao fato de uma negra ser a autoridade naquele momento.

A delegada aconselha às mulheres gostarem de si em primeiro lugar

Mas a delegada não abaixa a cabeça para o racismo: ‘’Eu sou a primeira delegada mulher no estado, a primeira mulher negra a ser admitida no quadro. A primeira!  Eu não vou ficar doente por causa desse tipo de racismo, não vou ficar com raiva se me chamarem de negra, absolutamente. Eu não gostaria é que me chamassem de branca dos olhos verdes, porque eu não sou. Eu sou negra mesmo e me amo. Sou negra apaixonada por mim mesma”.

Vaidosa, sempre de batom marcante, ela aconselha sempre às mulheres arrumarem-se pra si mesmas, a ter autonomia. Também é bastante católica e apesar de haver um grande espelho rosa atrás de sua mesa na delegacia, é à sua frente que ela concebe uma mesa repleta de santos do catolicismo, onde sua preferida é a Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, e negra.

Vilma Alves já participou também do movimento negro da capital. Ela relembra que foi na grande comemoração dos cem anos da abolição da escravatura, realizada no Centro de Convenções de Teresina, que nasceu o primeiro movimento negro da cidade intitulado na época por ‘’Movimento Negro’’ e hoje chamado de “Coisa de Negro’’, grupo afro cultural mais tradicional da cidade.

Como delegada da mulher ela afirma que o machismo não tem cor nem status social, porém destaca que as mulheres negras sofrem uma violência ainda maior pela questão étnica, ou seja, por terem servido historicamente como objeto de iniciação sexual dos homens, a maioria delas pobres. Contudo, ela ressalva: “A diferença de outrora pros dias atuais é que hoje elas têm pra quem se queixar. E hoje elas fazem isso em pé de igualdade como qualquer

outra mulher”.                                                                                            A mesa que guarda na sala da delegacia reflete seu apego à religião                                                                                                     

Mas apesar dessa conquista, ela coloca que a luta continua, e que não chegaram ainda nem na metade destas. “As lutas são constantes, nós estamos quebrando aqui os tabus, as amarras de uma sociedade onde a cultura machista é fortíssima”.

 

Números da violência - Há controvérsias sobre as notícias exibidas no Fantástico, em 6 de maio de 2012, sobre a taxa de homicídios de mulheres no Piauí. Segundo a advogada e integrante do DIHUCI - Grupo de Estudo, Pesquisa e Extensão sobre Direitos Humanos e Cidadania, que trata de gênero e Direitos Humano, da Universidade Federal do Piauí - UFPI, Anna Carolina Almeida, a estatística de que no Piauí o número de homicídios é de 2,6 mortes por 100 mil mulheres é falaciosa, pois não há como ter um controle desses números da maneira como eles são coletados atualmente: ‘’A estatística não representa a quantidade de mulheres que de fato morrem vítimas desta modalidade de violência. Estes dados não são                                                 sistematicamente coletados pela Polícia Civil, visto que não há um controle efetivo destas mortes, pois estes casos são encaminhados às delegacias comuns, ou seja, não são apurados pelas delegacias especializadas no atendimento à mulher vítima de violência’’.

 

Texto e fotos: Carmen Kemoly, Correspondente do Correio Nagô no Piauí

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