Teatro José de Alencar atrai povo de terreiro na chegada de Mãe Beata de Iemanjá em Fortaleza

A chegada da mãe Beata de Iemanjá na tarde do último domingo (27) em Fortaleza coloriu e encheu de batuques o imponente Teatro José de Alencar (TJA).  Reunindo as mais diversas religiões de matriz africana, a ocasião promoveu um verdadeiro encontro entre o povo de orixá da cidade. O lançamento do livro de contos da Ialorixá, chamado “Caroço de Dendê: A Sabedoria dos Terreiros”, atraiu um grande público para o teatro que reverenciou uma das figuras mais expressivas do Candomblé. O evento faz parte do projeto “Divinas Palavras”, uma iniciativa do cabeleireiro e produtor cultural, Marcos Oliveira em parceria com a direção do Teatro. Serão cinco encontros dedicados à diversidade religiosa, onde cada um contará com a presença de um convidado especial para palestrar. Marcos conta como surgiu essa ideia “O TJA é hoje um espaço aberto às diferenças, não só na cultura mais em outras dimensões sociais. Depois da minha viagem para o Rio de Janeiro onde conheci a mãe Beata e me iniciei no Candomblé, sugeri a Izabel (diretora do TJA) que fizéssemos o lançamento do Divinas Palavras com ela, porque mãe Beata traduz como ninguém o saber africano, indo além da oralidade, colocando no papel a sua vivência e sabedoria”. O evento ofereceu ainda a exposição de artigos e roupas de temática afro, tabuleiro de acarajé e o público pôde conferir a apresentação do grupo de dança africana Alàgba, do bairro Conjunto Palmeiras.


Grupo Alágba. 


Ao fim da tarde, Mãe Beata chega ao palco principal, recebida de pé pela plateia. Em sua fala, ela destacou a importância do orgulho de ser de Axé “Quem é de axé, diz que é de axé, tem orgulho disso, não esconde de ninguém! Acredita na força dos orixás e em seus ancestrais”. Aos 81 anos, Mãe Beata relembrou sua trajetória de vida, desde seu nascimento na senzala, passando pelo pai que tentou impedi-la de se alfabetizar, até sua iniciação no terreiro. 

Baiana da cidade de Cachoeira no Recôncavo Baiano, a ialorixá chamou atenção para um desafio colocado hoje para a juventude “Os jovens que estão aqui, sabem o que é ancestralidade? Porque meu livro trata disso. Vocês, mais velhos, nunca devem deixar faltar uma palavra para juventude, nunca neguem isso! Quando eles quiserem saber de algo que está muito à frente, peçam que tenham mais paciência que a hora certa deles entenderem disso chegará.” Para finalizar, a escritora interpretou o conto “Cachimbo de Tia Cilú”, do seu livro, e agradeceu o carinho e a presença de todos indagando “Quando nós podíamos pensar que uma mulher, negra, velha e semi analfabeta estaria em cima do palco de um teatro como esse, reivindicando direito para o seu povo?”

O Correio Nagô conversou também com o historiador e professor Hilário Ferreira sobre o significado de um momento como esse para o povo negro e de religiões de matriz africana “Foi interessante perceber a surpresa da mãe Beata ao se deparar com o teatro praticamente lotado. Acredito que isso seja resultado de uma imagem propagada pelo estado do Ceará, que nega a existência da população negra, e principalmente a enorme quantidade de gente de terreiro. A vinda dela é um símbolo de resistência frente a essa negação.”

Ao final, o público se dirigiu para a fila de autógrafos nos jardins do teatro, onde todos puderam dançar ao som do Afoxé Acabaca.

Texto e fotos: Aby Rodrigues, correspondente do portal Correio Nagô no Ceará.

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