Teresina: Lançamento do livro sobre o Fotojornalismo de José Medeiros

O livro “O Olhar e a Palavra – Fotojornalismo de José Medeiros na Revista O... foi lançado no final do mês de maio, na Casa de Cultura de Teresina.

 A obra foi tema da Monografia em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo da autora Ranielle Leal, pela Universidade Federal do Piauí, em 2007.  Neste ano, a pesquisa virou livro através da Lei de Isenção Fiscal do Ministério da Cultura, a Lei Rouanet. O evento lotou o salão principal da Casa, e contou com a presença de amigos e familiares, além de jornalistas locais e figuras importantes da cidade como o Promotor Fernando Santos, visto que atualmente a pesquisadora atua como Coordenadora de Comunicação do Ministério Público do Estado do Piauí. A doutora em Comunicação e professora da Universidade Federal do Piauí, Ana Regina Rego, mãe da autora, foi a mediadora do evento.          

O professor Gustavo Said, que orientou a monografia, disse que quando procurado para orientar a pesquisa e após o relato de Ranielle sobre o tema, sentiu-se bastante motivado por ser uma oportunidade de trazer um material tão importante à história do Piauí e do Brasil, saldando assim uma dívida com a cultura piauiense. Said confessa que até então não tinha um contato aprofundado sobre a Revista O Cruzeiro ou o fotógrafo José Medeiros, e admite ter sido um enorme aprendizado o tempo de convivência com a pesquisa de Ranielle. Para o orientador, a tradução mais importante do trabalho de José Medeiros foi o fato dele ter descoberto, à maioria da população, um Brasil até então desconhecido: “Ele traz um Brasil bem distante dos discursos oficialescos, dos discursos historiográficos ou políticos. Traz uma parte de nós que foi esquecida, que foi adulterada, reprimida. Um Brasil que nós não conhecíamos como Brasil. Ele revela, de alguma forma, o outro de nós mesmos”, destacou.

Fotos: Carmen Kemoly

Gustavo Said, orientador da obra e Ranielle Leal, autora do livro – Lançamento do livro O Olhar e a Palavra

 Ranielle Leal, bastante emocionada pelo fato de um familiar de José Medeiros haver falecido no mesmo dia do lançamento de seu livro, fez questão de mencionar que “a história é feita por quem luta todos os dias para que a vida de outras pessoas tenha outros caracteres; a história é feita por quem tem algo de bom a mostrar”. Quando questionada pelo Correio Nagô sobre as polêmicas de aceitação do trabalho de José Medeiros frente a alguns setores da comunidade do Candomblé, ela explica que muita gente até mesmo confunde que Zé Medeiros ainda esteja vivo e plagiando Pierre Verger, um grande fotógrafo francês, nômade pelo mundo, que escolheu a Bahia como seu habitat natural e se apaixonou pelo candomblé.

Na verdade, ela acredita que a polêmica se deve ao fato de que, antes de José Medeiros fazer suas primeiras reportagens à Revista O Cruzeiro sobre o candomblé, havia uma reportagem publicada pela revista francesa Paris Match, feita por Henri George Clouzot e intitulada “Les Possédées de Bahia” (“As possuídas da Bahia”), com forte cunho sensacionalista e preconceituoso, o que despertou forte reação entre alguns estudiosos do Candomblé, pois importava uma idéia de Brasil selvagem. “A Revista O Cruzeiro, como uma revista de renome nacional e internacional na época, se colocou para dar uma reposta à essa revista francesa. Foi quando Medeiros fez essa reportagem fotográfica, na época autorizada pelo centro de candomblé da Bahia. Ele passou meses conhecendo como era a religião, a paixão das pessoas, o que fazia parte da religião, que não era uma coisa ruim. Ao meu ver, o Zé Medeiros levou essa parte do Brasil, pro brasileiro conhecer e olhar com outros olhos, levou inclusive pessoas a aderirem à religião”, disse Ranielle. Ela finalizou afirmando que teria o maior prazer de apresentar o livro aos religiosos do candomblé do Piauí, caso fosse solicitada.

 Entretanto, o pensamento da autora ainda não é consenso entre a comunidade do candomblé. Veja a opinião de alguns colaboradores do Correio Nagô sobre o tema: 

 

Para Gustavo Said, as fotografias de José Medeiros têm um efeito especular, sobre a qual não se podia falar até então. O professor diz que a obra de Medeiros tenta promover uma espécie de identificação nos leitores da fotografia, como se fôssemos parte do próprio objeto fotografado. “Ganha um sentido de proximidade porque nos identificamos uns com os outros. Pela primeira vez nós temos a imagem inserida num contexto pedagógico”.

Considerando o candomblé uma religião que gira em torno da oralidade devido à ausência de um livro revelado, fica mais claro entender a importância dada à resistência de seus cultos e rituais frente aos ainda não adeptos à religião. Todavia, é papel dos veículos de comunicação aprofundar-se nas apurações ajudando seu público a perder preconceitos, introduzindo nos meios os mais diferentes tipos de crenças, tentando assim minimizar os efeitos da intolerância religiosa e ultrapassando a barreira do senso comum que assola o conceito de algumas pessoas em relação à certas religiões e que são reproduzidos cotidianamente. Dessa forma, a responsabilidade que esses veículos devem assumir nesse processo é essencial, garantindo que a comunicação brasileira atue com pluralidade em seus conteúdos a fim de que temas como as diversas matrizes religiosas sejam contempladas e esclarecidas. 

Texto de Carmen Kemoly, Correspondente do Correio Nagô no Piauí

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