Teresina/PI: No dia 13 de maio, a homenagem é para os Pretos Velhos

Religiosos da Umbanda fazem festa de celebração e agradecimentos aos antepassados

Texto e fotos: Carmen Kemoly, correspondente do Correio Nagô no Piauí

Na noite de 13 de maio, no bairro Itaperu, zona norte de Teresina, aconteceu uma grande comemoração. Muitos poderiam lembrar esse dia como apenas o Dia das Mães, outros poderiam lembrar da Princesa Isabel assinando a Lei Áurea, mas para Pai Adilton e todos os seus convidados ela tinha um significado diferente. Era a Festa em homenagem aos Pretos Velhos, mas especificamente à Preta Velha Mãe Joana.

O Babalorixá Adilton Iansã coordena, há 33 anos, o “Ilê Oyá Tade”, uma Casa de culto e cultura afro-brasileira, local onde ocorreu a festa. O líder religioso garante que essa é uma das festas que ele procura fazer mais bonita, porque os Pretos Velhos, para ele, são reis e rainhas: “É a nossa chave, nossa abertura para fazer os trabalhos da Umbanda”, explica.

     Babalorixá Adilton Iansã

A comunidade da Umbanda credita que a Preta Velha Mãe Joana viveu em cativeiro, sofreu muito, mas teve uma elevação espiritual muito grande para poder fazer caridade. Para eles, Ela realizou curas e hoje procura ensinar e engrandecer o ser humano. A mãe de santo Toinha de Oxóssi fez o resgate: “Preto Velho é Umbanda, é o começo da nossa história, nossas origens vem daquele navio negreiro, dos negros. A festa de hoje tem um significado grande, porque respeito muito os Pretos Velhos, que são a sabedoria. Tudo que sabemos veio dos velhos, dos antepassados, dos avós”, diz a yalorixá.  

Marcos de Oxalá, um dos organizadores, disse que essa é uma festa de Umbanda bem conhecida no estado do Piauí e que Pai Adílton organiza praticamente tudo, desde a parte visual, material e decoração, com muita criatividade e procurando respeitar a homenageada, e o que realmente ela gosta. “Como hoje é uma festa de louvação, de homenagem, os filhos todos estão prontos, preparados para receber a entidade homenageada. Aí ela vem em determinado horário e será celebrada. Os filhos vão cantar, presentear, agradecer todas as graças obtidas. Hoje se louva toda aquela luta negra, toda aquela força, resistência, que foi realizada pelos antepassados e escolhida essa data dentro da Umbanda porque simboliza a luta diária”, ressalta.

A festa tinha um tom de luxuosidade e dedicação nos quatro cantos do terreiro, e o babalorixá não nega: “As pessoas até acham que eu coloco beleza demais, luxo demais, mas eu boto porque eu passo o que Eles são. O negro tem qualidades, tem sua cultura, e hoje é muito fácil ver como o negro é uma força grande. Aqui dentro do estado do Piauí, eu quis mostrar uma coisa diferente, eu quis mostrar a beleza que é um orixá, o que é um mensageiro. A gente procura trazer elementos feitos pela própria natureza, as águas, as folhas, as pedras. Nesta Casa, a gente busca mostrar o que tem de melhor”, destaca.

Mães - Especialmente neste 13 de maio de 2012, por ser Dia das Mães, a comemoração deu-se de maneira peculiar. Benedita Ricarda, mãe de santo, que é moradora da cidade vizinha, Timon, no Maranhão, alertou sobre a sintonia da data: “Não é só a mãe biológica que precisa ser homenageada hoje. A mãe de peito, a mãe de santo também, porque ela é como se fosse da família, procura entender seu problema, receber, aceitar e orientar a pessoa e ajudar na medida do possível, sem discriminação, pobre, rico ou feio. Nossa obrigação como mãe de santo é receber todos de uma forma só e ajudar no que estiver ao nosso alcance”. Além disso, a Mãe Isabel de Ogum, também presente na festa, afirma que os umbandistas, como cristãos, também não podem esquecer de Maria Santíssima, a geradora.

Consciência - A conscientização dentro do terreiro é constante, segundo Marcos de Oxalá, pois para ele não adianta estar num local sem saber a raiz que você carrega e valorizá-la. Pai Adilton também fala que o mais importante é estar dentro de sua comunidade fazendo trabalhos sociais. Tanto que a comunidade hoje é a primeira a defender a Casa e, mesmo alguns sendo de outras religiões, aceitam e respeitam, bem como costumam visitar sua Casa.

Em toda a festa havia o sentimento de recuperação de forças por meio do resgate dos antepassados para as lutas que ainda virão, como desabafou a Mãe Isabel de Ogum: “Ainda são tempos de lutar pela nossa liberdade. Liberdade de expressão, liberdade física. Existe muita escravidão ainda, não só psicológica, mas muitos massacres, pela fome, pela guerra, pelo trabalho escravo de menores. Hoje é um dia em que os Pretos Velhos vem dar um alento ao nosso sofrimento através dessa energia, nos dando força para continuar a luta, pois não podemos parar”, acredita a líder religiosa.

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