Um dia depois da morte de Mandela, Brasil e Fifa exibem hoje, durante o sorteio da Copa de 2014, o racismo que os rege

Desde que Nelson Mandela tornou-se presidente da África do Sul depois de vencer as primeiras eleições democráticas de seu país em abril de 1994 , o hino nacional consistiu em duas músicas emendadas. Uma delas é " Nkosi Sikelel ' iAfrika ", ou " Deus abençoe a África ", cantada em manifestações de protesto negros durante os 46 anos entre a ascensão e queda do “apartheid”. O outro é " Stem Die " ("The Call" ) , o velho hino branco , uma celebração da conquista da ponta sul da África dos colonos europeus. Foi ideia de Mandela justapor os dois, no seu propósito de forjar, a partir de notas discordantes das melodias rivais uma mensagem poderosamente simbólica da harmonia nacional.

No Brasil, a democracia assume uma rota de contramão da história do homem,  ao exibir “ícones arianos” na hora de mostrar a cara para o mundo.

Aqui, uma pesquisa realizada pelo IBGE em 2008 analisou a percepção racial dos brasileiros. A pesquisa contou com a participação de 15 mil famílias distribuídas em diferentes estados. Os dados mostraram que apenas 7,8% dos entrevistados afirmaram de forma espontânea que a sua cor ou raça é "negra" ou "preta". Curiosamente, 11,8% dos entrevistados disseram que a origem da sua família é "africana", embora 25,1% reconheceram-se como "afrodescendentes" e 27,8% como "negros" quando essas opções lhes foram apresentadas, denotando uma contradição entre as respostas. Porém, quando a opção "afrodescendente" foi apresentada, 21,5% dos entrevistados se identificaram como tal. Mais brasileiros reconheceram ter uma ancestralidade europeia (43,5%) ou indígena (21,4%) do que africana (11,8%). É notável que, após a independência do Brasil, as elites nacionais iniciaram a construção das bases do “Estado Nacional”. Nesse contexto, o índio, embora tenha sido combatido no passado (e ainda o é, basta ver os programas da agroindústria e das hidrelétricas do governo federal, que na prática são instrumentos genocidas contra o índio) foi alçado à condição de "símbolo da nacionalidade brasileira", numa busca da afirmação de “uma identidade nacional nova que se formava após a separação de Portugal”. A literatura brasileira pós-independência foi marcada por representações exaltadas e épicas do índio, como um símbolo nacionalista. O negro, por sua vez, nunca foi prestigiado, pois sua condição de escravo não era compatível com uma representação épica da nacionalidade brasileira que se tentava construir. O europeu, por sua vez, sempre foi considerado superior ao índio e ao negro. Antes da independência, o colonizador português era o símbolo da "pureza racial". Após a independência, a construção da identidade branca no Brasil passou a abarcar os mestiços e mulatos mais claros que podiam exibir os símbolos da "europeidade": formação cristã e domínio das letras. Assim, no Brasil, quem sofre inteiramente a discriminação e o preconceito são as pessoas que têm a pele realmente escura. Sobre essa população recai todo o tipo de estereótipo, dos papéis sociais, das oportunidades de emprego e do estilo de vida. A ideia do "embranquecimento" da população, por meio do qual a população negra seria absorvida pela branca, passava pela concordância das pessoas de cor em renegar a sua ancestralidade.
O governo brasileiro restringia a entrada de estrangeiros, especialmente de judeus, japoneses e negros. Ao mesmo tempo, buscava facilitar a vinda de portugueses e, inclusive, de suecos. As leis de imigração no Brasil foram calcadas na teoria eugênica, criada no fim do século 19 pelo britânico Francis Galton, influenciado pela teoria evolucionista de Charles Darwin.

No começo do século 20, a eugenia tinha status de ciência e foi praticada por Estados que buscavam "aperfeiçoar" a raça humana por meio de seleção artificial. Com a utilização desses conceitos no projeto de "purificação" nazifascista, o termo “caiu” em desuso.

“O Presidente Getúlio Vargase parte das elites brasileiras estavam convencidos de que a composição étnica ‘não branca’ de boa parte dos brasileiros explicaria o atraso e as dificuldades do país”, escreve o historiador Fábio Koifman em "Imigrante Ideal: o Ministério da Justiça e a Entrada de Estrangeiros no Brasil (1941-1945)" [Civilização Brasileira, 446 págs., R$ 49,90]. A obra --com ajustes e revisões-- é a tese de doutorado defendida por Koifman na UFRJ em 2007 sob o título "Porteiros do Brasil".

Agora o Brasil, no evento do sorteio da Copa vai mostra que a “ração brasileira melhorou” exibindo um casal de apresentadores brancaos arianos enquanto os contribuintes afrodescendentes assistem imppotentes.

A Atriz Thais Araújo, ao ser indagada sobre a escolha de protagonistas brancos arianos, para o sorteio da Copa de 2014 (com relação a que, as comunidades afrodescendentes, ficou patente o racismo retrógrado como critério), declarou: "Eu acho que isso é um assunto que deveria ser perguntado para o Lázaro e para Camila (Pitanga), que era também cogitada para comandar o sorteio]. Eu não li uma linha do Lázaro sobre isso, então não sou eu que vou dizer. Eu não acho nada. Eu não sei o que aconteceu. Até então é especulação e eu não vou polemizar especulação", disseNo entanto, Taís foi taxativa ao comentar a questão do preconceito racial no país. "O racismo ainda é muito forte no Brasil sim. Isso é uma coisa que eu tenho certeza."

Sou o Professor Adelson de Brito, titular do blog Ciência e Tecnologia do Portal Correio Nagô, e não pude permanecer apático frente a coincidência dos dois eventos.

Referencias:

1.      Carlin, J; Nelson Mandela´s Legacy; Disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1168162-a-eugenia-e-o-imi... (acessado em: 06/12/13);

2.      Wikipédia; Composição étnica do Brasil;

Disponível em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Composi%C3%A7%C3%A3o_%C3%A9tnica_do_Br... (acessado em: 06/12/13);

3.      Folha de São Paulo; A eugenia e o imigrante ideal no Estado Novo; Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1168162-a-eugenia-e-o-imi... (acessado em: 06/12/13);

4.      Gente; Thais Araújo: O racismo no Brasil é muito forte: Disponível em: http://gente.ig.com.br/2013-12-05/tais-araujo-o-racismo-no-brasil-e...  (acessado em: 06/12/13);

Imagem: http://www.olaserragaucha.com.br/entretenimento/gente/6382/Insensat...

Exibições: 159

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Adelson Silva de Brito em 11 dezembro 2013 às 12:20

Muito bem observado,Irmã Rosivalda. Uma grande maioria afrodescendente, por ignorância ou por "comodismo" prefere se engajar como maioria silenciosa e conivente. Eu também não assisti o "sorteio". Continuo achando o cúmulo do descaso com o nosso papel de contribuinte, ser tratado como cidadão de segunda. O fato é grave: Dois afrodescendentes,forma preteridos, e substituídos por dois arianos. Eu me senti com na escola primária na década de 60, quando me disseram assim na minha cara, que o meu colega (de pele clara) foi escolhido por que "era de qualidade". Me sinto tão desprezado, que não sei nem quem vai enfrentar a Seleção. E não quero nem saber. É hora de dar um basta a esse sistema racista que usa o meu imposto para me discriminar. REPÚDIO JÁ!

Comentário de Rosivalda Barreto em 10 dezembro 2013 às 20:02

Mas a FIFA não pega na mão de quem assiste TV e compra ingresso para ver os jogos da Copa. Boicotar é coisa simples, não para nós!! Eu não assisti o sorteio! Se todos os africanos da diáspora não assistisse os pontos da transmissão no Brasil seria baixo, mas não fazemos isso!! Ninguém vai falar nada publicamente por que não querem perder os seus empregos na Globo!! 

Comentário de Adelson Silva de Brito em 8 dezembro 2013 às 22:28

Prezado Plácido, na verdade existe a necessidade de transformar a nossa visão das coisas em postura política. Obrigado pelo incentivo.

Comentário de PLACIDO SILVA em 8 dezembro 2013 às 12:47

Parabéns pelo brilhante e tão oportuno texto!!!

Muito obrigado Nobre Lente.

Comentário de Marcus Aleixo em 8 dezembro 2013 às 10:23

Excelente observação, irmão Adelson! Somos africanos na Diáspora!

Infelizmente não temos poder político, econômico e midiático pra impedir que nossa rica cultura seja constantemente usurpada de nós. Mas só o fato de estarmos falando sobre isso e difundindo essas informações já é um sinal de mudança!

Comentário de Adelson Silva de Brito em 7 dezembro 2013 às 12:04

Prezado Marcus

Que bom perceber que há entre nós correntes de esclarecimento que não compram o "projeto Brasil europeu". Parabenizo o seu comentário esclarecedor, e a sua experiencia no conhecimento da questão.

Veja, meu Irmão Marcus, hoje nos comerciais de TV do fim de ano, algumas agencias de propaganda, abandonam os seus argumentos de que "a imagem do negro não vende", e timidamente, nos dão "espaço na mídia." O movimento  só alcançará o patamar definitivo, no dia em que o afrodescendente brasileiro se convencer de que precisa assumir com orgulho a sua estética cultural: --Somos africanos na Diáspora e donos de uma história rica que nos é usurpada diuturnamente. Por isso vamos exigir a reparação de fato e de direito--. O dia em que essa atitude se traduzir em postura política, estaremos próximos da justa redenção. A você meu respeitoso abraço

Comentário de Marcus Aleixo em 7 dezembro 2013 às 11:35

Alguns brasileiros enchem a boca pra chamar os Estados Unidos de racista sem se dar por conta de que os políticos e as elites brasileiras sempre tentaram exterminar os negros e a identidade negra. Não digo que os americanos não sejam racistas, mas jovens negros tem sido assassinados no Brasil em números de causar inveja à Ku Klux Klan.

Em seu esforço para mostrar ao mundo uma CARA MENOS NEGRA POSSÍVEL, o Brasil, além de enfatizar a ascendência européia de sua população (como o casal que foi escolhido para o sorteio da Copa 2014), também engloba os negros mais claros e de traços menos africanos para, conforme suas palavras, Adelson: exibir os símbolos da "europeidade".

A bem da verdade, o conceito de diversas raças humanas é equivocado. Humanos com humano não dá mestiço. Dá outro ser humano, que pode até possuir um fenótipo diferenciado devido aos pais serem de ascendências diferentes (pai branco e mãe negra, por exemplo), mas um fenótipo diferenciado não constitui um novo grupo étnico-racial.

Os últimos sistemas a aceitar mestiço como identidade racial, e distinta de todas as outras, foram as colônias portuguesas em África (cujos países conquistaram sua independência por volta de 1975) e o Apartheid na África do Sul (fim em 1994). Ambos os sistemas foram condenados pela comunidade mundial.

Nas colônias portuguesas em África, os negros miscigenados ("mulatos") também eram oprimidos pela minoria branca, mas tinham incentivos sociais e políticos para se colocar como diferentes dos outros negros. Esse era o artifício usado pelos brancos para provocar separatismo entre os negros e debilitar a força da maioria.

A mesma artimanha foi adotada na África do Sul, onde os negros miscigenados (conhecidos como Coloureds) também eram orpimidos pela minoria branca, mas tinham incentivos sociais e políticos para se colocar como diferentes dos outros negros. Novamente o artifício de dividir para dominar.

Seguindo o mesmo raciocínio, o projeto de "embranquecimento" da população brasileira só daria frutos se os miscigenados aceitassem renegar à sua ascendência africana para ser colocados em uma posição intermediária. Como um novo grupo étnico-racial distinto de brancos e negros.

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço