Uma vida rara: antropóloga analisa obra de Carlos Moore sobre Fela Kuti

 

Uma vida rara

 

Por Goli Guerreiro

Quem é este caribenho que escreveu a primeira biografia de um artista africano? Carlos Moore vive uma vida rara. Afinal quantas pessoas no mundo podem tecer impressões pessoais sobre ativistas como Malcolm X, Cheikh Anta Diop, Aimé Césaire, Léopold Senghor, Maya Angelou, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento?

E mais conheceu estas pessoas quando elas estavam no auge de sua militância intelectual e política, quando cada uma delas era um farol antirracista.

 

Moore também é um farol e conviveu intimamente com um dos artistas mais audaciosos de toda a África, Fela Anikulapo Kuti. “Eu conheci Fela sem Fela. Eu estava em Lagos em 1974 para preparar o Festival de Artes Negras e minha esposa afro-americana, Shawna, quis ir ao mercado; ela queria se vestir à moda africana. No mercado havia muita música soando forte em autofalantes. Eram enormes, da dimensão de um homem. Os iorubás gostam de música alta, forte. O mercado era fantástico havia highlife, juju music e, de repente, comecei a ouvir uma música diferente das outras, quanto mais me aproximava mais essa música me invadia; era a segunda vez que ouvia uma música que eu não conhecia. A primeira eu era criança em Havana, me trancava no quarto às escondidas no meio da noite para ouvir uma música que vinha de fora, eu nem sabia onde, essa música era jazz e eu só vim saber quando aos 15 anos fui para os Estados Unidos. O jazz também tinha me cativado imediatamente”.

O afrobeat que invadiu a alma de Moore é a música criada por Fela Kuti, a grande arma que o artista usou contra o governo nigeriano, país em que nasceu e jamais abandonou. Sistematicamente perseguido e violado, Fela criou em Lagos uma comuna independente, a famosa “República Kalakuta”, em Ikeja, a 30 km do centro de Lagos, onde vivia. Mas , não foi lá que Carlos Moore finalmente viu Fela, que, em 1974, ainda morava na “Kalakuta I”, no bairro popular de Surulere; sua primeira comuna que fora incendiada e destruída em 1977. “Meus amigos escritores me explicaram quem era Fela Kuti. Pedi para ir vê-lo, então eles me levaram a sua casa de shows, o Santuário. Fela ficava sempre atrás, num lugar onde comia, fumava e recebia os amigos; ele só começava a cantar uma meia noite, a banda começava às 9 horas. A música rolando, as pessoas dançando e quando ele chegava o pessoal já estava louco, eufórico”.

 

A música etérea de Fela Kuti provocava um êxtase coletivo, enquanto as letras teciam mensagens libertárias ao tempo em que denunciavam práticas corruptas. A performance envolvia a estética ímpar das rainhas, dançarinas e esposas do músico. A sensualidade de Fela, seu dorso tantas vezes nu, a duração das músicas, seu discurso panafricanista, tudo reluzia.

 Fela e Moore: amizade

 

Fela criticou o cristianismo e o islã; o mundo pós-colonial e descartou a possibilidade de fazer concessões a indústria da música. Essa rebeldia também lhe fez recusar o convite de Carlos para escrever sua biografia. “Fela não queria o livro; achava que era coisa de branco. Ele era muito oral, achava que o livro era elitista e dizia, ‘Meu povo não lê; a favela não lê. Porque devo fazer?  Para os europeus?’ Tinha uma lógica, mas eu estava vendo que a continuidade da mensagem dependia do modo impresso, mas ele insistia e me desafiava: ‘Então, vai escrever livro em iorubá?’ Tentei ainda convence-lo, mas ele não concordou”.

 

A convivência de Carlos com Fela descontentou o governo nigeriano. “O governo me chamou e disse: ‘Nós trouxemos você aqui pra trabalhar e você está com os subversivos da Nigéria’. Eu tive que escolher e escolhi sair; fui detido. Mas assim que souberam, houve um pequeno escândalo e logo fui solto”. Em menos de um ano vivendo em Lagos, Carlos voltou a França e logo foi morar no Senegal.  Sua rotina passa a ser a ponte Paris-Dakar, trabalhando ao lado do cientista senegalês Cheikh Anta Diop, célebre por reescrever a história do Egito, afirmando  sua antiguidade negra. 

 

Mas em 1981, Carlos teve uma surpresa: “Eu estava em minha casa em Paris quando recebi um telefonema: ‘ ... Venha pra Lagos pra escrever o livro...’ Abandonei tudo, peguei avião e lá me deparei com uma situação dramática: Fela ia se matar, achava que já não dava mais pra continuar, desde que tinham atacado sua casa, mataram sua mãe, suas mulheres tinham sido estupradas, barbarizadas. Ele tinha caído em depressão profunda. Mesmo com Fela nesse estado, começamos a gravar imediatamente; ele me disse que me mandou buscar porque a mãe dele tinha falado que eu deveria escrever o livro. Mas a mãe dele estava morta há 4 anos!”

 

Carlos gravou longas entrevistas com o músico, conversou com suas esposas e seus íntimos  para escrever o livro. Mas havia uma questão da maior importância - evitar a morte do artista. Para quem conhecia a comunicação de Fela com a vida, com seu corpo, a ideia de que ele viesse a se suicidar era inaceitável. “Eu sabia que Fela dialogava com o espírito de sua mãe e ela era a única que podia impedi-lo de se matar”.

 

Sabendo da coragem daquele homem, Carlos resolveu fazer o seguinte: “Minha esposa escrevia ficção e eu tive a ideia de criar uma situação mágica, de fazer a mãe falar pedindo pra ele não cometer suicídio.  Então ela escreveu: ‘Meu filho, meu coração está sangrando porque o coração dos espíritos também sente dor e eu vou te dizer porque você não pode se matar’.  Quando Fela leu aquilo teve certeza de que sua mãe tinha usado o corpo de Shawna (Davis) para se comunicar com ele. Nunca mais voltou a falar em suicídio”.       

 

Carlos abriu e fechou a biografia com as chamadas “páginas pretas”. “Estruturei essa história com base na santeria, religião com a qual cresci convivendo em Cuba. Mas eu não podia escrever isso como uma mulher, como uma mãe. É um monólogo lindo em que ela fala da futilidade com o que os seres humanos estão envolvidos e diz: ‘Mas eu sei, vocês não estão interessados nisso, vocês querem saber sobre Fela’ ...” Essas páginas pretas – construído como um solilóquio titulado AFA OJO: “A dona da Chuva” - tornariam-se o pivô do musical FELA! da Broadway.

 

Esta vida puta é uma obra envolvente e revela não somente a vida de Fela Kuti, mas também a alma de Carlos Moore. “O que me atraiu em Fela foi a mensagem humanística, cheia de amor pela África. Fela não acreditava em fronteiras, ele via o mundo africano como algo planetário; o mundo negro é um  mundo sem fronteiras físicas com múltiplas identidades que não são fechadas e se comunicam umas com as outras”.

 

Talvez seja por isso que esse pensador cosmopolita escolheu a Bahia e a Cidade do Salvador para morar e seguir trabalhando. Publicar em português a biografia de Fela é mais uma bela maneira de dar continuidade à sua grande obra.

é antropóloga, viajante e fotógrafa amadora. Autora do blog: www.terceiradiaspora.blogspot.com

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