VAI EM PAZ EDERALDO: MAIS FIRME QUE NUNCA, A LUTA CONTINUA

 

É ISSO AÍ IRMÃO: A LUTA CONTINUA! VALEU; E COMO VALEU!!!

 

O processo que chamamos de morte e sepultamento de Ederaldo Gentil é mais um momento que carece de muita reflexão por parte de todos que gostam de samba, que tem um carinho e dedicado sua vida a manifestações artísticas e culturais na Bahia, sempre procurando elevar o nome da terra, e que geralmente, são marginalizados pela grande mídia; até mesmo por conta do elevado grau de ignorância com que muitos profissionais saem das faculdades – antes do conhecimento, outras questões estratégicas - são pontuais para estes setores da imprensa como: perfil estético e grau de disciplina em obediência e compromisso com a linha de pensamento da casa, etc.

É assim que o pensamento etnocêntrico tem disseminado noções e conceitos com mais facilidade e está procurando consolidar uma idéia de negritude; é assim que a elite colonizadora vem impondo seus valores, sempre visando seu favorecimento. Estamos falando da imposição de referencial teórico e prático que marginalizam, excluem e dentro dessas “formas subjetivas de praticar o espaço da cidade... Inexoravelmente, um mapa simbólico que opera fronteiras impalpáveis no cotidiano dos habitantes.” Àquilo que já foi identificado em Michel Certeau como “Geografia do Eliminado”.

As idéias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, preocupados em demonstrar que o capitalismo seria um acontecimento transitório, diante do aparecimento de uma classe revolucionária, para o surgimento de uma sociedade comunal; terminaram sendo adotadas e transpostas para o contexto teórico da história, reforçando a falsa noção da necessidade da passagem de um ponto ao outro para que uma sociedade pudesse atingir seu ápice. http://fabiopestanaramos.blogspot.com.br/2010/08/etnocentrismo-e-hi... < acesso em 31/03/2012>

 E quem não atinge e/ou tem uma forma de ver e ler a vida fora ou distante desse ponto transitório, vai para o chamado “mundo dos esquecidos”; Foi assim que comumente encontramos o discurso de que Ederaldo não quer ajuda, ele opinou por uma auto-exclusão, etc. E o que chama a nossa reflexão, é o fato de que os amigos de base, aquelas pessoas terra, que são vinculadas por se consideram de bem consigo mesmo em seu olhar civilizatório, sem precisar atravessar a provação da ponte estabelecida para se atingir ao que os algozes consideram ápice da sociedade; nunca acreditaram nesse “ELE NÃO QUER”, e não abre mão um só segundo como não abriu de Ederaldo.

Que não é a única pessoa neste estádio! Perdemos recentemente os Mestres Prego e João Pequeno – foi criado um espaço geográfico um território invisível para negritude, e quem não consegue ultrapassar esta fronteira, não tem negritude, não tem identidade ou é digno de ser esquecido, marginalizado e condenado ao ostracismo. E dentro deste espaço estão conceitos básicos e importantes para o reconhecimento humano como o de sambista e samba, ser e/ou ter vinculo com a negritude e reconhecer como lideranças personagens construídas pelas elites dominantes para este fim.

Ederaldo teve um projeto de Colégio de Samba no Centro Histórico que foi abortado e achincalhado, covardemente, outros projetos de sua autoria também tiveram o mesmo destino; tiraram-lhe as forças, as pernas e depois dissera: ele não quer andar! Hoje, o Estado se mobilizou para discutir uma Lei chamada “ANTI-BAIXARIA”; tudo bem, mas ninguém esta na base discutindo e oferecendo alternativa a garotada que está surgindo e que encontra uma escola obsoleta e degradada sem a menor perspectiva. No tempo em que a poesia campeava nos blocos afros alguém cantou: “O samba está dentro da mente da gente” e, se até aqui não conseguiram tirar, não é agora que irá fazê-lo.

É assim que personalidades da luta do povo negro nesta terra foram conduzidas ao ostracismo, dando lugar de destaque as personalidades inventadas para nós pela mídia, que por sua vez obedece aos implacáveis algozes dessa sociedade escravocrata; “trabalha, trabalha, trabalha negro...” Os amigos não abandonaram Ederaldo! Agora, acontece que saúde é um privilégio e que a política de extermínio, guardada as proporções não se limitam a uma escola pública inócua ou a ação da polícia nos bairros populares – o atendimento médico hospitalar é uma arma que a elite colonizadora utiliza com muita eficácia.

Sem uma humanização da saúde, vivemos sob uma eterna sentença; e não podemos abrir mão de viver!

Vai e volta e a conversa mole de onde o samba nasceu; se no Rio de Janeiro ou na Bahia!!! Primeiro, a busca de um deslocamento da matriz de onde vem a coisa, tiram África da história;

“Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro” (FUNARTE, 1983) de Roberto Moura traz a seguinte observação:

“Francisco Gonçalves Martins, chefe da polícia na época da revolta malê, se torna presidente da província da Bahia de 1849-53 e, com sua obsessão pelo perigo africano, defende limitar o escravo à esfera da agricultura e coagir os libertos a voltar para a África. Durante sua gestão amplia as exclusões dos escravos a ocupações urbanas, proíbe aos negros o aprendizado de determinados ofícios, estabelece impostos aos artífices urbanos, e aumenta a insegurança com a ação repressiva da polícia, que enche as prisões com libertos, aumentando as levas de forros que partem, alguns para a África, muitos para o Rio de Janeiro.” (pág. 32)

Isso não quer dizer que o Rio de Janeiro estivesse de portas abertas como os chamados imigrantes foram recebidos pelo Brasil:

“A Assembléia Provincial do Rio de Janeiro chega a pedir em 1835 que se impeça o desembarque de escravos da Bahia e principalmente o de libertos de qualquer estado na capital, já que esses eram considerados os fomentadores das revoltas.” (pág. 31)

É assim que Tia Ciata e outras e outros que apesar de ter nascido no Brasil tinham uma identidade e cidadania negadas, chegam ao Rio de Janeiro!

A exportação de pretos continua! A dificuldade ou desconsideração em lidar com alteridade por parte das elites na Bahia é de uma perversidade tão gritante que só mesmo um processo de servidão voluntária para fazer com que um excluído se sinta parte dessa coisa; mesmo vivendo a disputar com os insetos as migalhas que caem da mesa dos seus senhores.

Por esta razão são perversos; Mituca, João Barroso, Vicente D’Paul, China, Gal do Beco, Reinaldo Leleta, entre muitos outros não esqueceram Ederaldo; o que faz o detalhe  são os  limitados recursos que eles dispõem e os vários mecanismos institucionais que foram construídos ao longo dos tempos, para evitar que novas resistências surgissem; entre os mecanismos a infiltração e a cooptação merecem destaque porque são as ferramentas utilizadas para abortar ainda no nascedouro a luta, ao tempo que dissemina idéias confusas e fora da realidade do nosso povo.

Fugir deste sistema de valores é negar a identidade que lhes é oferecida e negar essa identidade oferecida, é não querer apoio, não querer solidariedade e pedir para viver no ostracismo. PODE NÃO TER SIDO O NEGRO CONFORME OS MOLDES ESTABELECIDOS, OBEDECENDO A PADRÕES ENLATADOS DE REFERÊNCIA E SEGUIR O MODELO ADOTADO - QUE CANTEM OS TORORO, COM TODO EQUIVOCO QUE POSSA TER COMETIDO, VOCÊ QUEBROU A MÉDIA NEGÃO...

 

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