Visões: o Subúrbio Ferroviário revisto por nós

O geógrafo Diosmar Filho analisa o Subúrbio Ferroviário de Salvador como território de resistência negra, além de retomar questões levantadas pelo Boletim Baiano de Geografia, organizado pelo pensador negro Milton Santos, nos anos de 1960. Uma boa leitura! 


Confira o texto na íntegra: http://correionago.com.br/portal/30715/

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Comentário de José Eduatdo Ferreira Santos em 31 dezembro 2015 às 0:26

Visões Geográficas: o Subúrbio Ferroviário revisto por nós (que temos nome)

José Eduardo Ferreira Santos

Quando um artigo é publicado ele corre o risco de de ser percebido como completo, exaustivo em sua temática, mas não é assim. A História mostra que o que não é escrito não fará parte da Memória, e assim será esquecido. A invisibilidade, neste sentido, é uma ferida recorrente nos historiografia brasileira, particularmente quando a falta de registros históricos sobre as populações das periferias faz aumentar o fosso das desigualdades e mesmo o sentimento de pertença. Por essa invisibilidade não sabemos, por exemplo, a história dos que nos precederam. Lendo a recém lançada biografia de Milton Santos escrita por Fernando Conceição tenho de novo essa constatação: nos documentos de nossos pais, mães, avós e avôs sempre falta um registro de nome de um dos seus genitores e esse nome ausente provoca dor, orfandade, vergonha ou um sentimento de incompletude porque afeta as nossas origens e uma pessoa sem origem torna-se refém do agora, do mercado, da violência, da negação de direitos e mesmo da cidadania (veja como os bairros periféricos são tratados pelos poderes públicos, como se ali não houvessem pessoas com nome, sobrenome, histórias e ancestralidade)...

Neste sentido o presente texto é para fazer um adendo ao texto publicado por Diosmar Filho no site do Correio Nagô sobre o evento Visões Geográficas, realizado nos dias 19 e 20 de dezembro de 2015 no qual ele foi convidado como palestrante no segundo dia, um domingo à tarde, e participou do roteiro deste dia inteiro, na condição de convidado e por isso sem a dimensão que precedeu a realização do evento como reuniões, planejamento e outras questões referentes para que o mesmo se realizasse.

Agradeço o empenho do autor e gostaría de acrescentar algumas informações que considero importantes porque lidam diretamente com a omissão dos nomes das pessoas envolvidas na construção coletiva do evento que comemorou ou 50 anos do Boletim Baiano de Geografia, organizado por Milton Santos e seu grupo (Norma Maria Ramos de Freitas, Cléa Linhares de Oliveira, Walney Moras Sarmento, Maria Auxiliadora da Silva, Célia Simões Peixoto, Euda Maria Caldas, Neyde Maria Sanches Santos, Nair Viana, Terfeza Cardoso da Silva e Douracy Soares) no início de 1960 e publicado em 1965 e revisto agora por nós, que temos nomes.

É pelos nomes desse "nós" que venho exercer esse direito à memória escrita de fazer e contar a História por quem a construiu, saindo, assim, da "história única", como bem lembrou Lorena Cerqueira. Não quero repetir o erro da dita "história oficial" que omitiu intencionalmente os nomes dos nossos antepassados e dos nossos territórios periféricos e suburbanos.

Por isso, com um adendo, gostaria de nomear as pessoas que construíram o Visões Geográficas em seus dois dias de discussões e descobertas sobre a cidade do Salvador e seu Subúrbio Ferroviário porque a história é feita de registros. Assim como no referido artigo não estão os nomes e as informações segue uma atualização...

Em respeito aos nomes o evento foi produzido coletivamente pelo Acervo da Laje em parceria com Leandro Souza, Lorena Cerqueira, João Pena, Leo Lima, Igor Bunchaft, Clímaco Dias, Vilma Santos e Fabrício Cumming. Foram dois dias de atividades, sendo que no primeiro deles houve um passeio de trem da Calçada até Paripe com visita guiada até a praia de Tubarão e à tarde fizemos a primeira Roda de Discussão sobre o Boletim Baiano de Geografia com as presenças dos professores Clímaco Dias, Glória Cecília Figueiredo, João Pena e com mediação minha, José Eduardo Ferreira Santos.

Nesta mesa discutimos questões relacionadas à contextualização da realização do Boletim e seus pesquisadores, para isso contamos com a presença do professor Clímaco Dias, que trouxe dados e histórias muito importantes para a contextualização do documento, seu grupo de pesquisadores e sobre o professor Milton Santos.

A professora Glória, por sua vez, trouxe questões muito pertinentes sobre a discussão sobre o PDDU, provocando a nossa participação neste momento histórico contemporâneo.

O professor João Pena também trouxe contribiuições importantes sobre o pensar a cidade atual e o Subúrbio dentro desta Cidade. Neste primeiro dia houve intensa participação das pessoas, todas se colocando, discutindo e interagindo de forma democrática e histórica, dada a relevância deste documento para pensar o território suburbano. É isso. Considero que essas informações são importantes para apresentar um panorama mais completo do que vivemos no Visões Geográficas, que foi uma construção coletiva, com a colaboração de cada pessoa envolvida nas mais diversas questões: criação da página no Facebook (Leandro Souza), digitalização do Boletim (Davi Carlos), Fotografia e registro (Igor Bunchaft e Davi Carlos), convite de palestrantes (Lorena Cerqueira, Leandro Souza e Leo Lima), Cessão do Boletim impresso (José Eduardo Ferreira Santos), produção de cartazes, crachás, banner (Leandro Souza e Fabricio Cumming), cadeiras e mesas para o evento (Leandro Souza), lanches e caldos (Vilma Santos), locais de visita em Prentice e no Outeiro com os guias João Antonio e George (Vilma Santos, José Eduardo) e as inscrições via internet (Davi Carlos). No segundo dia participaram como palestrantes Natureza França, Ana Vaneska, Márcio Bacelar, Diosmar Filho, Antonia Garcia em mesa mediada por mim. Neste sentido o Acervo da Laje trabalha contra a invisibilidade da história em relação à populações das periferias, do Subúrbio Ferroviário, dos jovens negros assassinados, das/os artistas invisíveis e mesmo dos (poucos, pouquíssimos) registros e narrativas que foram construídas sobre nós e o nosso território.

O Visões Geográficas quis (e conseguiu) mudar as narrativas estigmatizantes em relação so Subúrbio Ferroviário de Salvador por conta da ousadia dessas pessoas que estão acreditando que SER é possível e não querem e não podem mais ser niveladas por baixo (nada contra o seu texto, mas sim em relação à omissão dos nomes por falta de consulta e informações sobre o evento em si), pois descobriram que se não fizerem e escreverem a história serão invibilizados por ela por conta de escritas parciais que não dão conta da complexidade do que vivemos e ainda estamos em processo de elaboração, processo este que é demorado e exige reflexão, leitura, sem a pressa pelos resultados que possam acrescentar itens ao nosso "lattes" e se não escevermos a história que vivemos seremos invisibilizados por ela.

Em dois dias de ações descobrimos que podemos escrever a nossa história dialogando coletivamente com os mais variados saberes, mas sem hierarquias rígidas, aprendendo juntos, com afeto, alegria e vida, sem a pressa corriqueira para mostrar resultados, mas com a atenção voltada para o crescimento coletivo e individual.

O Visões Geográficas surgiu no momento em que precisamos discutir o PDDU da Cidade do Salvador, no momento em que o Outeiro de Plataforma foi ocupado pela Tenda Construtora e não há nenhuma mobilização ou discussão sobre essa questão.

Esse texto que segue existe pelo direito que temos aos nossos nomes, às nossas histórias e às narrativas que estamos construindo, dialogando e superando os anacronismos e esquecimentos diante de uma cidade cujos traços coloniais, separatistas e seletivos ainda insistem em ditar quem ou qual território faz parte dela e de sua história.

Eventos como o Visões Geográficas quebram essa hegemonia quando são realizados por pessoas em locais considerados "improváveis", por conta do racismo e dos estigmas, mas que existem e se afirmam como construção coletiva que, superando as expectativas, faz História e nos coloca no fluxo dela como protagonistas e não meros expectadores.

Comentário de José Eduatdo Ferreira Santos em 31 dezembro 2015 às 0:24

Visões Geográficas: o Subúrbio Ferroviário revisto por nós (que temos nome)

José Eduardo Ferreira Santos

Quando um artigo é publicado ele corre o risco de de ser percebido como completo, exaustivo em sua temática, mas não é assim. A História mostra que o que não é escrito não fará parte da Memória, e assim será esquecido. A invisibilidade, neste sentido, é uma ferida recorrente nos historiografia brasileira, particularmente quando a falta de registros históricos sobre as populações das periferias faz aumentar o fosso das desigualdades e mesmo o sentimento de pertença. Por essa invisibilidade não sabemos, por exemplo, a história dos que nos precederam. Lendo a recém lançada biografia de Milton Santos escrita por Fernando Conceição tenho de novo essa constatação: nos documentos de nossos pais, mães, avós e avôs sempre falta um registro de nome de um dos seus genitores e esse nome ausente provoca dor, orfandade, vergonha ou um sentimento de incompletude porque afeta as nossas origens e uma pessoa sem origem torna-se refém do agora, do mercado, da violência, da negação de direitos e mesmo da cidadania (veja como os bairros periféricos são tratados pelos poderes públicos, como se ali não houvessem pessoas com nome, sobrenome, histórias e ancestralidade)...

Neste sentido o presente texto é para fazer um adendo ao texto publicado por Diosmar Filho no site do Correio Nagô sobre o evento Visões Geográficas, realizado nos dias 19 e 20 de dezembro de 2015 no qual ele foi convidado como palestrante no segundo dia, um domingo à tarde, e participou do roteiro deste dia inteiro, na condição de convidado e por isso sem a dimensão que precedeu a realização do evento como reuniões, planejamento e outras questões referentes para que o mesmo se realizasse.

Agradeço o empenho do autor e gostaría de acrescentar algumas informações que considero importantes porque lidam diretamente com a omissão dos nomes das pessoas envolvidas na construção coletiva do evento que comemorou ou 50 anos do Boletim Baiano de Geografia, organizado por Milton Santos e seu grupo (Norma Maria Ramos de Freitas, Cléa Linhares de Oliveira, Walney Moras Sarmento, Maria Auxiliadora da Silva, Célia Simões Peixoto, Euda Maria Caldas, Neyde Maria Sanches Santos, Nair Viana, Terfeza Cardoso da Silva e Douracy Soares) no início de 1960 e publicado em 1965 e revisto agora por nós, que temos nomes.

É pelos nomes desse "nós" que venho exercer esse direito à memória escrita de fazer e contar a História por quem a construiu, saindo, assim, da "história única", como bem lembrou Lorena Cerqueira. Não quero repetir o erro da dita "história oficial" que omitiu intencionalmente os nomes dos nossos antepassados e dos nossos territórios periféricos e suburbanos.

Por isso, com um adendo, gostaria de nomear as pessoas que construíram o Visões Geográficas em seus dois dias de discussões e descobertas sobre a cidade do Salvador e seu Subúrbio Ferroviário porque a história é feita de registros. Assim como no referido artigo não estão os nomes e as informações segue uma atualização...

Em respeito aos nomes o evento foi produzido coletivamente pelo Acervo da Laje em parceria com Leandro Souza, Lorena Cerqueira, João Pena, Leo Lima, Igor Bunchaft, Clímaco Dias, Vilma Santos e Fabrício Cumming. Foram dois dias de atividades, sendo que no primeiro deles houve um passeio de trem da Calçada até Paripe com visita guiada até a praia de Tubarão e à tarde fizemos a primeira Roda de Discussão sobre o Boletim Baiano de Geografia com as presenças dos professores Clímaco Dias, Glória Cecília Figueiredo, João Pena e com mediação minha, José Eduardo Ferreira Santos.

Nesta mesa discutimos questões relacionadas à contextualização da realização do Boletim e seus pesquisadores, para isso contamos com a presença do professor Clímaco Dias, que trouxe dados e histórias muito importantes para a contextualização do documento, seu grupo de pesquisadores e sobre o professor Milton Santos.

A professora Glória, por sua vez, trouxe questões muito pertinentes sobre a discussão sobre o PDDU, provocando a nossa participação neste momento histórico contemporâneo.

O professor João Pena também trouxe contribiuições importantes sobre o pensar a cidade atual e o Subúrbio dentro desta Cidade. Neste primeiro dia houve intensa participação das pessoas, todas se colocando, discutindo e interagindo de forma democrática e histórica, dada a relevância deste documento para pensar o território suburbano. É isso. Considero que essas informações são importantes para apresentar um panorama mais completo do que vivemos no Visões Geográficas, que foi uma construção coletiva, com a colaboração de cada pessoa envolvida nas mais diversas questões: criação da página no Facebook (Leandro Souza), digitalização do Boletim (Davi Carlos), Fotografia e registro (Igor Bunchaft e Davi Carlos), convite de palestrantes (Lorena Cerqueira, Leandro Souza e Leo Lima), Cessão do Boletim impresso (José Eduardo Ferreira Santos), produção de cartazes, crachás, banner (Leandro Souza e Fabricio Cumming), cadeiras e mesas para o evento (Leandro Souza), lanches e caldos (Vilma Santos), locais de visita em Prentice e no Outeiro com os guias João Antonio e George (Vilma Santos, José Eduardo) e as inscrições via internet (Davi Carlos). No segundo dia participaram como palestrantes Natureza França, Ana Vaneska, Márcio Bacelar, Diosmar Filho, Antonia Garcia em mesa mediada por mim. Neste sentido o Acervo da Laje trabalha contra a invisibilidade da história em relação à populações das periferias, do Subúrbio Ferroviário, dos jovens negros assassinados, das/os artistas invisíveis e mesmo dos (poucos, pouquíssimos) registros e narrativas que foram construídas sobre nós e o nosso território.

O Visões Geográficas quis (e conseguiu) mudar as narrativas estigmatizantes em relação so Subúrbio Ferroviário de Salvador por conta da ousadia dessas pessoas que estão acreditando que SER é possível e não querem e não podem mais ser niveladas por baixo (nada contra o seu texto, mas sim em relação à omissão dos nomes por falta de consulta e informações sobre o evento em si), pois descobriram que se não fizerem e escreverem a história serão invibilizados por ela por conta de escritas parciais que não dão conta da complexidade do que vivemos e ainda estamos em processo de elaboração, processo este que é demorado e exige reflexão, leitura, sem a pressa pelos resultados que possam acrescentar itens ao nosso "lattes" e se não escevermos a história que vivemos seremos invisibilizados por ela.

Em dois dias de ações descobrimos que podemos escrever a nossa história dialogando coletivamente com os mais variados saberes, mas sem hierarquias rígidas, aprendendo juntos, com afeto, alegria e vida, sem a pressa corriqueira para mostrar resultados, mas com a atenção voltada para o crescimento coletivo e individual.

O Visões Geográficas surgiu no momento em que precisamos discutir o PDDU da Cidade do Salvador, no momento em que o Outeiro de Plataforma foi ocupado pela Tenda Construtora e não há nenhuma mobilização ou discussão sobre essa questão.

Esse texto que segue existe pelo direito que temos aos nossos nomes, às nossas histórias e às narrativas que estamos construindo, dialogando e superando os anacronismos e esquecimentos diante de uma cidade cujos traços coloniais, separatistas e seletivos ainda insistem em ditar quem ou qual território faz parte dela e de sua história.

Eventos como o Visões Geográficas quebram essa hegemonia quando são realizados por pessoas em locais considerados "improváveis", por conta do racismo e dos estigmas, mas que existem e se afirmam como construção coletiva que, superando as expectativas, faz História e nos coloca no fluxo dela como protagonistas e não meros expectadores.

Comentário de José Eduatdo Ferreira Santos em 31 dezembro 2015 às 0:17

Sobre o Visões Geográficas: o evento foi produzido coletivamente pelo Acervo da Laje em parceria com Leandro Souza, Lorena Cerqueira, João Pena, Leo Lima, Igor Bunchaft, Clímaco Dias, Vilma Santos e Fabrício Cumming. Foram dois dias de atividades, sendo que no primeiro deles houve um passeio de trem da Calçada até Paripe com visita guiada até a praia de Tubarão e à tarde fizemos a primeira Roda de Discussão sobre o Boletim Baiano de Geografia com as presenças dos professores Clímaco Dias, Glória Figueiredo, João Pena e com mediação minha, José Eduardo Ferreira Santos. Nesta mesa discutimos questões relacionadas à contextualização da realização do Boletim e seus pesquisadores, para isso contamos com a presença do professor Clímaco Dias, que trouxe dados e histórias muito importantes para a contextualização do documento, seu grupo de pesquisadores e sobre o professor Milton Santos. A professora Glória, por sua vez, trouxe questões muito pertinentes sobre a discussão sobre o PDDU, provocando a nossa participação neste momento histórico contemporâneo. O professor João Pena também trouxe contribiuições importantes sobre o pensar a cidade atual e o Subúrbio dentro desta Cidade. Neste primeiro dia houve intensa participação das pessoas, todas se colocando, discutindo e interagindo de forma democrática e histórica, dada a relevância deste documento para pensar o território suburbano. É isso. Considero que essas informações são importantes para apresentar um panorama mais completo do que vivemos no Visões Geográficas, que foi uma construção coletiva, com a colaboração de cada pessoa envolvida nas mais diversas questões: criação da página no Facebook (Leandro Souza), digitalização do Boletim (Davi Carlos), Fotografia e registro (Igor Bunchaft e Davi Carlos), convite de palestrantes (Lorena Cerqueira, Leandro Souza e Leo Lima), Cessão do Boletim impresso (José Eduardo Ferreira Santos), produção de cartazes, crachás, banner (Leandro Souza e Fabricio Cumming), cadeiras e mesas para o evento (Leandro Souza), lanches caldos (Vilma Santos), locais de visita em Prentice e no Outeiro com guias (Vilma Santos, José Eduardo), inscrições via internet (Davi Carlos). Se esqueci de alguém, me avisem. Grato.

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