Você Trabalha? - Crônica sobre um jovem negro que quer estudar.


O jovem chega ao Banco do Brasil afobado porque sua ordem de pagamento do exterior, disponível há um mês em sua conta, ainda não foi compensada e vai saber a razão. É um jovem negro que recebe uma doação para completar seus estudos numa grande universidade brasileira.

Ao ser questionado pelo jovem, o funcionário do citado banco lhe pede documentos que comprovem o recebimento da ordem. O rapaz lhe explica que esse documento já foi apresentado pela enésima vez e que, pela enésima vez, tem de mostrar as amassadas cópias de uma declaração óbvia de 2008, quando do início do recebimento de sua bolsa de estudos de doutorado.

O jovem está cada vez mais irritado, mas esconde sua irritação sob uma fina camada de educação inglesa. Fornece ao funcionário os papéis pedidos e espera que finalmente sua ordem seja compensada para viajar e dar procedimento à sua difícil vida de pesquisador num país em que estudar parece ser mais uma confissão de culpa de um crime que uma honra e um trabalho.

O funcionário desaparece atrás da parede de precárias divisórias. Aquele é um templo dedicado ao deus Dinheiro, onde agiotas tranquilos trabalham servidos de tédio enorme. A eles, ao que parece ao jovem, não lhes cabe senão a incubência de obedecer à eterna ordem das coisas: ricos mandam, pobres obedecem. Sim, pois pessoas ricas sempre foram ricas e sempre tiveram a mesma imagem. Pessoas posses são pobres mesmo e em geral têm sonhos; quando têm sonhos, arriscam-se, lançam-se nas nuvens do seu delírio quebram a cara. Para todos os sonhos existe mastercard.

O jovem espera ansioso por uma resposta: Por que seu dinheiro simplesmente não está na conta? E o funcionário volta, diz-lhe que seu documento de identidade é muito velho e precário. Ainda mais irritado que antes e com o rosto marcado de agonia e revolta, o jovem abre sua bolsa e aponta ao funcionário tranquilo uma carteira de trabalho envelhecida. Na foto que figura na carteira, há um adolescente muito assustado.

O funcionário aceita o documento e após alguns minutos volta com a resposta. Os olhos do jovem brilham - de raiva - ao ouvir que da alta voz dos altos dentes do funcionário que, por estar devendo ao cartão de crédito, não faz sentido receber tanto dinheiro somente por estudar.

O jovem responde que é inteligente e não percebe nenhuma ligação entre dever ao cartão de crédito e não poder receber um depósito em sua conta. Ao que o funcionário gordo de tédio pergunta cortantemente: Você trabalha?. Folheia apressado sua carteira profissional: VOCÊ TRABALHA? Até hoje essa pergunta ecoa na cabeça do jovem. VOCÊ TRABALHA? E o jovem entende, negro, que o Banco simplesmente quis colocá-lo em "seu lugar". Para longe da cadeira da fila de espera, para longe das portas giratórias, para longe de todo o dinheiro somente guardado para quem o merece receber... Respondem gaguejando de nervoso, perplexo com tanto abuso e despeito, que seu trabalho é de pesquisa... Grande silêncio seguido de desculpas esfarrapadas. VOCÊ TEM DE PROVAR QUE ESSE DINHEIRO É SEU. É MUITO DINHEIRO!

O jovem entende, negro, que é negro e isso negativiza qualquer possibilidade de ter dinheiro. Melhor que não tivesse tido olhos tão assustados em suas fotos, pensa. Mas descobre que o seu susto, antes pelo flash da máquina fotográfica, agora é outro, transfigurado pela ameaça de uma instiuição financeira que faz questão de humilhar seus clientes. Neste episódio, Osmar viu-se mais uma vez sob um acúmulo de nãos sobre nãos ao SIM que recebeu um dia por ser quem é.


Escrito por Osmar. (Rio de Janeiro)

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Comentário de Ava Avacy Maria dos Santos em 6 abril 2010 às 23:22
Esta narrativa é de uma realidade tão dura, que me faz pensar, quão longe está o dia em que seremos tratados não pela cor da pele, mas por sermos seres humanos e que merecemos respeito.
Comentário de Cláudia Pereira em 6 abril 2010 às 18:03
Cara que História , e que lição, precisamos cada ver mas contar essas cronicas( verdades) de nosso país.

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