Voto tem cor? - Por: George Oliveira

Diversas são as comparações sobre os votos para presidência do Brasil. Ao ver o mapa dos votos por estado comecei a pensar o porquê dessa quase polarização norte-sul do país. Ou seria uma polarização entre negros e brancos?  O voto etnicorracial nas eleições brasileiras parece-me um tema interessante e sobre ele irei falar nas próximas linhas.

Para começo de conversa fiz um comparativo entre os cinco estados que têm o maior percentual  de negros (preto e pardos) autodeclarados: Pará (76,7%), Bahia (76,3%), Maranhão (76,2%), Amapá (73,9%) e Piauí (73,4%) e entre os estados com menores percentuais: Santa Catarina (15,3%), Rio Grande do Sul (16,2%), Paraná (28,3%), São Paulo (34,6%) e Mato Grosso do Sul (48,5%). Sendo que a Bahia tem o maior percentual entre os pretos, com 17,1% e o Pará apresenta maior percentual entre os pardos com 69,5%. Já Santa Catarina tem o menor percentual entre os que se declararam pretos, com apenas 2,9% e o Rio Grande do Sul conta com o menor contingente de pardos dos cinco estados, com apenas 10,6%.

Em seguida, pude perceber que Dilma venceu nos cinco estados com maior percentual de negros: Maranhão, o maior percentual, 79%; seguido do Piauí com 78%, na Bahia obteve 70%, no Amapá 61% e no Pará 57%. Já Aércio, vice-colocado nas eleições presidenciais de 2014, obteve o maior percentual em Santa Catarina, com 65%, seguido de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, respectivamente, com 64, 61, 56 e 54% de votos para o candidato. Seria então uma mera coincidência? Como explicar o efeito “cor/raça” nas urnas?

Um comentário de Carla Akotirene numa famosa rede social “engrossou o caldo” de um pensamento sobre a cor dos eleitores nesta eleição:

Há problemas estruturantes neste país! O racismo, a violência contra jovens negros, o ódio religioso, as opressões de gênero, a criminalização do aborto, a baixa representatividade negra em cargos de alto escalão... 
A boa vontade política de um governo ou outro pode diminuir a pobreza, mas a branquidade contida nas movimentações partidárias sempre nos tratará como população beneficiária. Um segmento digno de pastas especificas (reparação, promoção da igualdade racial). 


O PT deve agradecimentos à população negra pela eleição de Dilma. Vamos aguardar um novo tom, quiçá, para os ministérios e secretarias de estado. Desta vez vamos exigir mais que a cota. Somos competentes em qualquer posição política que assumamos
.”

José Vicente, em 2013, respondeu a Lívia Perozim do Carta na Escola em entrevista intitulada: “Por que para o negro não?”, a seguinte pergunta: “O senhor vê novas perspectivas para o negro no governo Dilma?” Ele declarou que: “A presidenta Dilma, da mesma maneira que os demais governantes, ainda não tratou com toda a ênfase, intensidade e mesmo com toda a atualidade esse tema. Nós tínhamos no governo Lula, em alguns momentos, quatro ministros negros: Gilberto Gil, Benedita da Silva, Matilde Ribeiro e Orlando Silva. Agora, no governo Dilma, não temos nenhum negro no primeiro escalão. No ministério, nos bancos públicos, nas universidades públicas, nos postos de prestígio não há negros. Imagine que quando o Obama esteve no Brasil, o país mais negro da América, não havia um negro no almoço de recepção.”

Ainda em resposta à mesma pergunta, Vicente revelou que: “Continuamos nos comportando como se as coisas estivessem todas no lugar quando, na verdade, sempre estiveram e continuam fora do lugar. Antes se dizia que a discriminação não era racial, era social, e com o milagre brasileiro tudo se resolveria. Hoje chegamos à condição de sexta potência mundial, e o gap  é o mesmo de quando estávamos entre as septuagésimas economias do mundo.

Mesmo não tendo dados suficientes para afirmar, arrisco uma opinião em relação à “coincidência” em relação aos cinco estados brasileiros apresentados. Dilma teve maioria dos votos válidos nesses cinco estados com maior população autodeclarada de pretos e pardos devido aos avanços do seu primeiro mandato. O que pode nos levar a refletir e concluir que as ações afirmativas para população negra, histórica e estrategicamente “esquecidas” pelos antigos governantes podem ser um motivo para a preferência de tais populações pelo partido que está no poder nos últimos doze anos, período que tais medidas reparatórias tiveram avanços mais significativos. Porém, muito ainda precisa ser feito.

Parabéns Presidenta, pela reeleição e desejo-lhe uma excelente mandato com atenção especial às questões da população negra, historicamente marginalizada e minorizadas pelas elites dominantes do nosso país. Nosso apoio, transformado em militância, em convencimento e em votos precisa ser transformado em ações que afirmem a identidade e a cidadania dessa parcela majoritária da população brasileira, a população negra.

Links:

·         Disputa por estado: confira no mapa regiões em que Dilma e Aécio venceram - http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/disputa-por-estado...

·                  Pará tem maior percentual dos que se declaram pretos ou pardos, diz estudo - http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/11/para-tem-maior-percentua...

·         Por que para o negro não? - http://www.cartanaescola.com.br/single/show/127

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George Oliveira

Militante do Movimento Negro

Mestre em Desenvolvimento e Gestão Social  (CIAGS/UFBA)

grbo2003@yahoo.com.br

#25

 

 

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Comentário de ISAC AFONSO DOS SANTOS FILHO em 24 novembro 2014 às 22:15

Perfeito George, 

Penso e acrescento que, nada nunca foi dado de graça e, nunca será. Assentamos algumas poucas cadeiras e, parece que esquecemos a luta. Ainda temos que superar o "Paradigma do gueto".

Translation:

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