Zumbi, Gardel e Ban Ki-Moon 
 
O Tango conhecido na voz romântica e triste de Carlos Gardel tem recebido substanciais pesquisas que atestam as influências da musicalidade afro-americana em sua formação. O Tango é negro! Esta é mais uma justiça histórica a favor das civilizações que formaram o mundo como o concebemos O reconhecimento de que as danças e as canções africanas nas Américas moldaram aquilo que denominou-se de Tango é um dado irrecusável. 
A dança corporal que comunica entrelaçamentos e desejos, é a dança da aproximação, do toque e do convívio. A música e a poesia navegam melancolicamente na dança da sedução e do compartilhamento. È isso que significava o Tango para os africanos na América. No baile dos negros dançava-se Milonga como se fosse Tango, como nos diz Roberto Selles no livro “A história do Tango – La Milonga”. Muito se festejava na Bacia do Plata enquanto morriam caudalosamente no barco ou no galpão, na guerra ou de doença, como ainda se morrem negros que dançam...
Este não é um debate pacífico, entretanto, a influência das manifestações culturais africanas, desde o Candombe (Batuque dos negros do Rio do Prata), o Tangano (origem Banto da palavra quilombo), até a Milonga e a Habanera (danças e músicas negras e caribenhas), permeadas por suas corruptelas, hibridismos e recomposições plasmaram o Tango moderno. Levado para Europa no início do século XX sofreu influências da musicalidade europeia – Polca, Mazurca e o Tango Andaluz, e aqui nas Américas da musicalidade brasileira na Bacia do Plata, do toque do tambor e das tanguerias convertendo-se na dança esquemática e erudita da alma portenha. 
Como Zumbi nunca morre e nunca deixa de lutar por seus ideais de liberdade e justiça, inspiremo-nos no Tango que compartilha laços após cotidianos dissabores. Se nada aprendemos com o Tango nas últimas dezenas de anos e não soubemos dançar o compartilhamento numa região onde milhões foram massacrados, dancemos o Tango, com Zumbi, Gardel e Ban Ki-Moon no Ano Internacional da Afrodescendência no mais inebrioso dos perfumes de uma vida plural e justa!
Sérgio São Bernardo, Advogado, Mestre em Direito Público-UNB e Professor da Uneb. 

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