O Professor Coerente, uma garantia de liberdade na escola?!

 

          É claro que as escolas já não são as casas de delícias e encantos, como queria Comenius. Tampouco, lugar de saber e cultura, onde o espírito se liberta da ignorância; onde sacia a sede de saber. Também, sabemos que muitas de nossas escolas, sequer têm livros, mapas, giz, biblioteca; muito menos, computadores. E o professor?! O último bastião contra a exploração, a avareza, a ganância, o orgulho e a violência. Em outras palavras, o professor é, ou deve ser, alguém que liberta consciências. Aquele que deixa o discípulo pensar. E, por isso mesmo, precisa sempre de mais autonomia.

          É importante salientar quem é o público para quem essa escola e esse professor se dirigem. No Egito antigo, a “escola” era formadora de faraós; na Grécia de Homero, de nobres; na Esparta florescente, formava guerreiros, soldados; na Idade Média, religiosos; depois, com a intervenção dos mouros, a escola vai se voltar para uma nova classe social, a burguesia; ainda mais tarde, com São Tomás de Aquino, a escola inaugura o racionalismo cristão, que redundará nas primeiras universidades ocidentais conhecidas. E ainda mais adiante, com a Contra-Reforma, surgiu o conceito de educação universalizada para todos e como utilidade social. A partir daqui,  já em plena Idade Moderna – caracterizada pelos Direitos Civis e Revolução Francesa – René Descartes; John Locke; Émile Durkheim; Rousseau; Pestalozzi, Dewey; Alexander Neill; e assim, sucessivamente; a escola é um dever do Estado; portanto, gratuita, obrigatória, laica, construtora de nacionalidades e da cidadania. Atualmente, a escola enfrenta e estabelece outros tantos paradigmas; o mais notório, precisa ser globalizada; consequentemente, sede primeira das tecnologias de ponta.

          A partir desse breve histórico da instituição escolar, percebemos que a escola é um lugar onde os mais diversos interesses se cruzam, colidem, se mesclam, se perpetuam, se difundem; numa palavra, se complexibilizam. Basta dizer que, similar ao que acontecera no passado, forma dirigentes nacionais, soldados e burgueses; e, além disso, as mais diversas minorias – entre elas, mulheres, afro-descendentes, indígenas, homossexuais, especiais, estrangeiros, etc . Ou seja, a escola, com o passar do tempo, acumulou funções, objetivos, perspectivas, deveres. Por um lado, portanto, é uma instituição que garante certa homogeneidade entre os cidadãos; preservação de culturas; condicionamentos comportamentais; estabelecimento de verdades. Por outro, segundo todas as suas diretrizes normativas, quais sejam, a Constituição Federal, e a LDB/1996, visa diferenciar os cidadãos a partir de seus próprios méritos. E esse aspecto de seu arcabouço institucional implica se voltar para questões intra-escolares, a exemplo de currículo e competências, formação inicial e continuada dos professores, e processos de aprendizagem.

          Para Comênio, o pai da Didática moderna, o professor deve ensinar não o que deseja, mas o que seus alunos podem compreender – sob que perspectiva?! – Para Rousseau, mais do que instruir, a educação deveria enfatizar a formação moral e política. Para Pestalozzi, o ofício do professor podia ser comparado ao do jardineiro; pois, as sementes, como os alunos, trazem em si mesmas o “projeto” de árvore. Dewey, a meta da vida não é a perfeição, mas o eterno processo de aperfeiçoamento, amadurecimento, refinamento. (1) Durkheim, a educação tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança, estados físicos e morais que são requeridos pela sociedade política no seu conjunto. (2) E para Alexander Neill, Gostaria antes de ver a escola produzir um varredor de ruas feliz do que um erudito neurótico. (3) Para Gramsci,

 

       (...) a escola tem a função de dar acesso à cultura das classes dominante, para que todos pudessem ser cidadãos plenos (...) A tendência democrática da escola não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada cidadão possa se tornar um governante. (4)

 

          Piaget, O conhecimento não pode ser uma cópia, visto que é sempre uma relação entre objeto e sujeito. (5) Vygotsky, na ausência do outro, o homem não se constrói. (6) Para Rogers, toda a nossa cultura procura insistentemente manter os jovens afastados do contato com os problemas reais (...) e se pergunta se a escola pode (...) inverter essa tendência. (7)

          Nesse contexto conturbado porque cercado de aspirações, nem sempre legítimas, Paulo Freire afirmará que o professor (educador) deve ser um exemplo de qualidades e virtudes a serem seguidas – o que ele chama de coerência – e que seu ato de educar é um modo de romper a “cultura do silêncio” dos menos favorecidos, e assim, transformar a realidade. E continua:

 

       Como, na verdade, posso eu continuar falando no respeito à dignidade do educando se o ironizo, se o discrimino, se o inibo com minha arrogância? (...) se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. (8)

 

          Assim sendo, o professor é um profissional capaz de tomar decisões acertadas sobre o que e como ensinar, considerando quem são seus alunos e quando e onde ensina. Para Alves de Mattos,

       (...) deve-se encarar o mestre, não apenas como explicador de matérias, mas como educador apto a desempenhar sua complexa função de estimular, orientar e controlar com habilidade o processo educativo e a aprendizagem dos seus alunos, com vistas a um real e positivo rendimento para os indivíduos e para a sociedade. (Sant’Anna e Menegolla, 2002, p. 37)

          Para Gusdorf,

       (...) aquele que desperta consciências adormecidas, que ajuda abrir caminhos, que promove para a ação desencadeadora de liberdades (...) ele educa e forma personalidades. Sua presença é um apelo, uma interpelação dirigida ao íntimo das pessoas. (Gusdorf, apud Sant’Anna e Menegolla, 2002, p. 37)

          E ainda,

       (...) presença que permite à pessoa se libertar e se auto-realizar (...) o professor se compromete em defender e testemunhar a verdade e a vida dos outros. (Sant’Anna e Menegolla, 2002, p. 37)

 

          A essa altura, basta saber se a escola real, a vida real e o mundo real comportam tal criatura, ou ...

 

(1)      Revista Nova Escola. Edição Especial (Grandes Pensadores). Editora Abril. Pág. 27

(2)      Idem. Pág.: 29

(3)      Idem. Pág.: 45

(4)      Idem. Pág.: 50

(5)      Idem. Pág.: 56

(6)      Idem. Pág.: 68

(7)      Idem. Pág.: 62

(8)      Idem. Pág.: 72

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Respostas a este tópico

Claudio,

Parabéns pelo artigo. Gostaria de apresenta-lo à escola onde leciono, pela sua pertinência e pelo brilhante passeio q vc faz em torno dos caminhos da educação até essa nossa, conturbada, contemporaneidade.

ConceiçãoMiranda 

 

O que posso lhe dizer ?! A beleza de sua resposta me comove.

maria da conceição simões mirand disse:

Claudio,

Parabéns pelo artigo. Gostaria de apresenta-lo à escola onde leciono, pela sua pertinência e pelo brilhante passeio q vc faz em torno dos caminhos da educação até essa nossa, conturbada, contemporaneidade.

ConceiçãoMiranda 

 

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