- Artigo sobre a arte de Dina Garcia do mestre Narlan Matos, Ph.D Professor de cultura brasileira no Montgomery College, MD Dr. Narlan Matos Teixeira ( doutor pela Universidade de Illinois, nos USA, uma das 10 maiores). A CELEBRAÇÃO DA VIDA E DAS CORES
De repente, surgiu uma de suas telas na minha tela de Facebook, vinda das mãos de algum amigo ou amiga. Pensei que tratava-se apenas de uma tela, mas, intuido, resolvi por procurar a origem. Encontrei. Nos tornamos face-amigos. E, daí por diante, foi uma enxurrada de telas. Comecei a investigação, movido pelo magnetismo que sua arte exercia em mim e por uma estranha curiosidade. A origem: numa garagem pequena, quase paisana, convertida em atelier, numa remota cidade do interior, trabalhava Dina Garcia, jovem e desconhecida pintora baiana. O susto: se sua arte era desconhecida de crítica e público, suas profícuas telas – mais de mil – já demonstravam uma linguagem pessoal e madura, experimental, lúcida e delirante, impregnada de matizes fortes e impressões cênicas. Foi suficiente para instigar uma investigação mais séria: não se tratava apenas de mais uma pintora. Dina era um verdadeiro dína-mo.
Sua clara influência de Frida Khalo não se perfazia uma mácula, uma sombra, mas sim uma sombra luminosa colorida, coada e adicionada de ricas impurezas, impregnada de vida, do dia-a-dia de lavradores e personagens comuns do Recôncavo baiano, do sertão. A arte de Dina Garcia é uma dinamite de pigmentos, um entroncamento de linguagens e conteúdos diversos, que convergem na direção de uma pintura maior. Saliento, aquí, que, enquanto Kahlo era lírica, girando muito em torno de sua tragédia pessoal, Dina Garcia, além de lírica, insere sua obra dentro de uma épica coletiva. Há uma confluência com a tradição da pintura latino-americana, inclusive com temas sociais, como é o caso de seus lavradores, vendedores de bananas, etc. Estão presentes a denúncia social, a condição do homem, a mulher, a sensualidade, a sociedade agrária, a natureza, a crônica urbana e quotidiana, além de muitos outros.
Anteriormente, quando falei do caso de Dina Garcia ser do interior não significa em nada que ela seja provinciana – e muitos críticos mal-versados incorrem neste equívoco - pelo contrário, ela surge do interior de si mesma, da Bahia, do Brasil e da América Latina como uma força telúrica, expondo elementos profundos da identidade latino-americana que resultam em signos deste continente. Sua universalidade vem justamente disso.
Dina Garcia é herdeira da melhor tradição de 1922, aquela que diz o homem e sua cultura através das formas e cores. A pintura modernista abriu caminho para a liberdade e o experimentalismo, temas não-acadêmicos, sobretudo aqueles relacionados ao quotidiano, à vida comum. As gerações subsequentes se distanciaram daquela tradição para não repetí-la ou por não conhecê-la. No entanto, este afastamento foi radical demais, impelindo muitos pintores à condição de caricatura de artistas. Lembrando que muitos dos pintores de 1922 eram nascidos em fazendas de café no interior do Brasil e traziam consigo, naturalmente, a força da natureza – a luz - que todo verdadeiro artista deve possuir, mesmo quando duvida.
Comumente, tem-se ressaltado as influências do fovismo, cubismo e expressionismo na obra de Dina Garcia – e, de fato, são bastante evidentes. Entretanto, há que se adicionar que sua linguagem também está relacionada a fenômenos mais contemporâneos como o comics – e mesmo ao ready made, ambos relacionados à pós-modernidade – o que equilibra a arte de Garcia, equalizando tradição e modernidade. Algumas de suas pinturas me lembram uma página de uma revistinha em quadrinhos. Todavia, é uma página de quadrinhos com um toque de uma mão artística magistral. Seu colorido impressiona e cativa, aliado à irreguladidade das formas. Há, por trás de suas cores fortes e alegres, de suas formas irregulares – consciente ou inconscientemente - um discurso sócio-político-antropológico que se liga ao da grande

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